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Resumo

  • É o reflexo de uma ala crescente dos evangélicos portugueses que recusa a associação ao Chega e teme as consequências dessa aproximação.
  • Para estes líderes, a mistura de fé e política ameaça a liberdade religiosa conquistada ao longo de décadas.
  • Se por um lado há deputados e líderes religiosos próximos do Chega, por outro existe um movimento silencioso que insiste em separar altar e urna.

Numa pequena igreja em Loures, o pastor João preferiu dedicar o sermão a uma leitura de Isaías. Antes de terminar, deixou um aviso: “Aqui, não se fala de política. O nosso compromisso é com Cristo, não com partidos.” A frase foi recebida com aplausos discretos. É o reflexo de uma ala crescente dos evangélicos portugueses que recusa a associação ao Chega e teme as consequências dessa aproximação.

O relatório Chega e Evangélicos em Portugal identifica esta divisão: enquanto algumas igrejas independentes acolhem o discurso venturista, a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) e vários pastores locais defendem neutralidade. O receio é claro: que a comunidade evangélica, ainda alvo de estigmas sociais, seja confundida com a extrema-direita.

A defesa da neutralidade religiosa

A AEP, que congrega dezenas de denominações, tem repetido que o púlâuto não deve servir de palanque político. “A missão da igreja é espiritual, não partidária”, sublinha um dos seus dirigentes. Para estes líderes, a mistura de fé e política ameaça a liberdade religiosa conquistada ao longo de décadas.

Pastores de várias congregações recordam ainda que muitos dos fiéis são imigrantes, dependentes de políticas de acolhimento que o Chega propõe restringir. “Se associarmos a fé a Ventura, arriscamo-nos a votar contra nós próprios”, afirma um missionário brasileiro em Lisboa.

O medo da estigmatização

Entre os fiéis críticos, a principal preocupação é a imagem pública. Portugal, maioritariamente católico, conhece pouco a realidade evangélica. Qualquer associação direta ao Chega pode reforçar preconceitos. “Já somos vistos como diferentes. Se nos colarem à extrema-direita, ficaremos ainda mais isolados”, lamenta Ana, membro de uma igreja pentecostal em Setúbal.

Para estes crentes, a verdadeira ameaça não vem apenas de fora, mas também de dentro: a divisão da própria comunidade. Igrejas que optam por apoiar Ventura criam fraturas com outras que rejeitam essa ligação.

A disputa pela identidade evangélica

Socólogos sublinham que está em curso uma batalha simbólica: quem fala em nome dos evangélicos em Portugal? Se por um lado há deputados e líderes religiosos próximos do Chega, por outro existe um movimento silencioso que insiste em separar altar e urna.

“O que está em jogo é a identidade pública do movimento evangélico”, explica o investigador Tiago Cavaco. “Será ele visto como braço político da extrema-direita ou como uma comunidade plural, com diferentes visões?”

Fé sem rótulos partidários

Apesar do crescimento do Chega em zonas com forte presença evangélica, é claro que não existe unanimidade. Muitos pastores reforçam a prioridade da missão espiritual e rejeitam qualquer instrumentalização partidária. Para eles, a mensagem é inequívoca: a fé deve ser vivida em liberdade, sem rótulos políticos.

E a pergunta que ecoa nos templos críticos é contundente: Ventura será aliado na defesa da fé ou ameaça à sua credibilidade?

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