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Resumo

  • Durante décadas, a imagem dominante da PIDE foi a de homens de fato escuro, voz grave e mãos calejadas pela tortura.
  • A investigação nos Arquivos da Torre do Tombo e na documentação do extinto Ministério do Interior revela a existência de mais de 350 mulheres com vínculo direto à PIDE/DGS, entre os anos 40 e 70.
  • , antiga presa em Caxias, recorda no livro No Limite da Dor a figura de uma “funcionária de bata azul” que presenciava os exames ginecológicos forçados e tomava notas friamente.

Durante décadas, a imagem dominante da PIDE foi a de homens de fato escuro, voz grave e mãos calejadas pela tortura. Mas a história é mais complexa — e mais incómoda. Na máquina repressiva do Estado Novo, também houve mulheres. Não apenas vítimas, mas colaboradoras, informadoras, funcionárias e cúmplices activas do sistema opressor. O seu papel tem sido pouco estudado, raramente citado nos manuais escolares, praticamente ausente nos discursos oficiais da memória democrática.

Esta reportagem mergulha na zona cinzenta da repressão feminina em Portugal: quem foram essas mulheres, o que faziam e por que razão foram tão eficazmente apagadas da narrativa histórica?


A face invisível da repressão

A investigação nos Arquivos da Torre do Tombo e na documentação do extinto Ministério do Interior revela a existência de mais de 350 mulheres com vínculo direto à PIDE/DGS, entre os anos 40 e 70. Ocupavam cargos administrativos, funções de vigilância interna, serviços de escuta telefónica e, em alguns casos, participavam activamente na elaboração de relatórios de vigilância e interrogatórios.

Um relatório interno da PIDE datado de 1962 menciona explicitamente “a eficácia da operadora Maria A. F., cuja escuta telefónica permitiu desmantelar a célula comunista da Lapa”. Noutros documentos, nomes de mulheres surgem como “colaboradoras de confiança” em bairros de Lisboa, Coimbra e Funchal.


Quem eram?

A maior parte destas mulheres eram oriundas das classes médias urbanas, com escolaridade básica ou secundária. Muitas foram recrutadas por ligações familiares — filhas ou esposas de agentes — ou por fidelidade ideológica ao regime salazarista. Outras foram seduzidas por promessas de estabilidade financeira e estatuto.

A historiadora Sofia Marques, autora de uma tese pioneira sobre “A presença feminina nos serviços secretos do Estado Novo”, afirma: “Estas mulheres não foram apenas secretárias passivas. Algumas demonstraram zelo, iniciativa, participação directa na repressão e, em certos casos, rivalizavam com os colegas masculinos no cumprimento das ordens.”


Mulheres a interrogar mulheres

Casos documentados indicam que as agentes femininas eram frequentemente utilizadas nos interrogatórios de prisioneiras políticas. Por “questões de pudor” ou para facilitar confissões, os chefes da PIDE recorriam a mulheres para monitorizar, vigiar ou humilhar as detidas.

Maria Luísa P., antiga presa em Caxias, recorda no livro No Limite da Dor a figura de uma “funcionária de bata azul” que presenciava os exames ginecológicos forçados e tomava notas friamente. “Ela não falava. Limitava-se a escrever. Mas os olhos denunciavam desprezo. Era pior que os homens.”

A utilização de mulheres para legitimar actos de violência sexual ou humilhação corporal é uma dimensão da repressão raramente discutida. Mas essencial para compreender a lógica de género da repressão salazarista.


As bufas de bairro

Fora das estruturas oficiais, milhares de mulheres colaboraram como informadoras. Frequentemente anónimas, vigiavam vizinhos, denunciavam reuniões suspeitas, assinalavam comportamentos “de esquerda”, passavam cartas ou telefonemas à polícia política.

O jornalista Adelino Gomes identificou num dossier inédito 47 casos de denúncias escritas por mulheres anónimas, entre 1958 e 1972, remetidas directamente para a sede da PIDE. “São cartas mal escritas, mas claras: ‘O meu vizinho lê livros russos’, ‘a minha prima ouve rádios estranhas’, ‘a empregada doméstica não vai à missa’.”

A colaboração feminina com a repressão não se limitava a um acto esporádico. Em muitos casos, era um papel contínuo, alimentado pelo moralismo, pelo medo ou pelo ressentimento pessoal.


Silêncio após o 25 de Abril

Ao contrário de muitos ex-agentes masculinos que foram detidos, julgados ou pelo menos publicamente nomeados, as mulheres da PIDE escaparam, na maioria, à responsabilização pública. Os seus nomes raramente constam dos processos judiciais ou das listas de ex-agentes.

A investigadora Vera Garcia, que estuda repressão e género no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova, sublinha: “Houve uma amnistia informal do papel feminino na repressão. Talvez por preconceito — a ideia de que as mulheres não podiam ser realmente perigosas. Mas foram.”

Essa invisibilidade pós-revolução criou uma espécie de amnésia de género. As mulheres foram lembradas como vítimas — e com razão — mas não como parte do aparelho de vigilância.


Um fenómeno europeu?

Portugal não foi caso único. A historiografia sobre as mulheres colaboradoras em regimes repressivos (Alemanha nazi, União Soviética, RDA, Chile) revela padrões semelhantes: mulheres que participaram ativamente, mas foram protegidas do escrutínio por uma cultura que as considerava incapazes de crueldade autónoma.

No caso português, esse manto de invisibilidade foi reforçado pelo conservadorismo cultural e pela despolitização do papel feminino na ditadura.


É tempo de contar tudo

O feminismo histórico tem feito avanços importantes na reconstrução da resistência feminina — desde Catarina Eufémia a Natália CorreiaMaria LamasFrancisca Van Dunem, entre tantas outras. Mas a narrativa da repressão continua incompleta se não integrar também as mulheres que colaboraram, vigiaram, denunciaram.

Contar estas histórias não desvaloriza a luta das resistentes. Pelo contrário, torna-a mais densa, mais verdadeira, mais humana.


Recomendações de investigação futura

  • Criação de um arquivo digital com perfis de colaboradoras identificadas;
  • Inclusão do papel feminino na repressão nos currículos universitários de História e Estudos de Género;
  • Financiamento público para documentários e estudos sobre o tema;
  • Testemunhos protegidos de vítimas que tenham vivenciado repressão por mulheres;
  • Exposição temática no Museu do Aljube ou no Memorial de Peniche.

Entre a vítima e a cúmplice, entre a esposa que sofria e a secretária que vigiava, existiram muitas mulheres. A história da repressão em Portugal precisa de lhes dar nome, rosto e contexto. Porque a memória democrática também se constrói com verdades incómodas.

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