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Resumo

  • Foi descrito e sistematizado pela RAND Corporation como “firehose of falsehood” — a mangueira de falsidades — e tem sido amplamente utilizado pela Rússia em campanhas de desinformação, tanto internas como externas.
  • Segundo dados do MediaLab ISCTE, durante a campanha eleitoral de 2024, o Chega foi o partido mais mencionado nas redes sociais, apesar de não liderar nas intenções de voto.
  • “O número de fontes, mesmo falsas, e a repetição de mensagens criam uma percepção de verdade — ou, no mínimo, de dúvida suficiente para desmobilizar a crítica”.

A eficácia da propaganda moderna já não reside apenas na qualidade da mensagem, mas na quantidade de vezes que ela é repetida. No caso do Chega e do seu líder, André Ventura, a estratégia é clara: inundar o espaço público com declarações, publicações e polémicas constantes, de modo a manter uma presença omnipresente e sufocar vozes críticas. Este modelo não é original. Foi descrito e sistematizado pela RAND Corporation como “firehose of falsehood” — a mangueira de falsidades — e tem sido amplamente utilizado pela Rússia em campanhas de desinformação, tanto internas como externas.

Em Portugal, o Chega adopta esta táctica de saturação comunicacional como uma arma de dominação simbólica. Através de volume, repetição e omnipresença, Ventura tornou-se um fenómeno mediático sem paralelo recente. Mas a que custo para o debate democrático?

Quando a quantidade vence a qualidade

Nas redes sociais, André Ventura é uma máquina de produção discursiva. Vídeos diários, mensagens com frases de efeito, transmissões em direto, tweets polémicos, stories com memes e citações fora de contexto. Cada publicação é menos uma tentativa de informar e mais um gesto performativo, calculado para gerar resposta, partilha e controvérsia.

Segundo dados do MediaLab ISCTE, durante a campanha eleitoral de 2024, o Chega foi o partido mais mencionado nas redes sociais, apesar de não liderar nas intenções de voto. Só no mês de Fevereiro, Ventura acumulou mais de 80 horas de tempo de antena televisiva, entre debates, entrevistas e reportagens. Este número ultrapassa largamente o dos seus pares parlamentares.

Esta hipervisibilidade tem um efeito colateral deliberado: rouba oxigénio aos restantes actores políticos e temas relevantes. O ruído sistemático impede que outras vozes se façam ouvir, mesmo quando têm propostas substantivas. Como explicou o especialista em comunicação política Miguel Poiares Maduro, “quando todo o espaço mediático é colonizado por alguém que fala muito, ainda que diga pouco, os outros perdem pela ausência”.

O algoritmo como cúmplice

O modelo de propaganda russa — e agora venturista — assenta também na relação simbótica entre redes sociais e polémica artificial. O algoritmo favorece conteúdos com forte reacção emocional. Declarações chocantes, vídeos indignados, ataques ad hominem, imagens virais — tudo serve para alimentar a máquina.

Ventura não ignora esta lógica. Usa-a como motor. Um exemplo claro foi o caso da polémica com o jornalista Ricardo Araújo Pereira, em 2022: uma provocação propositada nas redes que gerou milhares de interações, reações televisivas e, claro, mais minutos de atenção.

Como referem os investigadores da RAND, a intensidade da exposição — mesmo quando negativa — pode gerar uma impressão de legitimidade. “O número de fontes, mesmo falsas, e a repetição de mensagens criam uma percepção de verdade — ou, no mínimo, de dúvida suficiente para desmobilizar a crítica”.

“Falar mais é vencer”? A armadilha mediática

A lógica de saturação beneficia de uma fraqueza estrutural do jornalismo moderno: a sua dependência de declarações, do imediatismo e da procura por reações virais. Ventura sabe que cada frase bombástica será noticiada. Os media, por sua vez, sentem-se compelidos a cobrir o “acontecimento” para não parecerem alheios.

Mas este ciclo tem um preço. O espaço editorial é finito. Ao dar palco sistemático ao Chega — mesmo sob a justificação de escrutínio — os media tornam-se co-produtores da máquina de ruído. Cada nova indignação sobre Ventura eclipsa debates relevantes sobre habitação, saúde, justiça ou alterações climáticas.

A antiga jornalista e ombudsman Estrela Serrano alertou para este fenómeno: “A cobertura mediática do Chega tornou-se reativa, e não proactiva. Os jornalistas respondem ao que Ventura diz, em vez de o confrontarem com o que ele evita dizer.”

Quem mede o volume?

Importa, então, fazer uma análise quantitativa e qualitativa da presença do Chega no espaço mediático. O tempo de antena, a frequência de menções nas redes, a repetição de temas (imigração, criminalidade, “sistema”) são dados mensuráveis. É possível — e necessário — construir mapas de saturação discursiva que permitam perceber até que ponto o Chega distorce o equilíbrio democrático do discurso público.

Plataformas como a Media Cloud, desenvolvida pelo MIT, e o Crowdtangle, utilizado por várias redacções europeias, oferecem ferramentas que permitem seguir o rasto digital de campanhas de volume. Em Portugal, a articulação entre jornalistas, universidades e especialistas em dados políticos poderia oferecer um painel mensal de ruído político-partidário, algo inexistente até à data.

Vale tudo para ser ouvido?

A dada altura, é inevitável perguntar: vale tudo para dominar a atenção pública? Quando o volume se sobrepõe ao conteúdo, quando a presença constante sufoca o pluralismo, quando a repetição sistemática distorce a perceção de realidade — estaremos ainda a falar de liberdade de expressão ou já entrámos no território do abuso sistémico da atenção colectiva?

A democracia exige debate — mas um debate informado, plural, estruturado. Se o espaço público é capturado por uma única fonte de ruído, não é apenas a verdade que fica em risco: é o próprio processo democrático que se fragiliza.

Conclusão: menos é mais — excepto na propaganda

O Chega percebeu algo que muitos ainda ignoram: a quantidade pode criar a ilusão de qualidade, e o ruído pode parecer substância. Esta é a base da sua máquina de comunicação. Inspirada no modelo russo, adaptada à realidade portuguesa, amplificada por redes sociais e jornalistas desprevenidos, esta estratégia tornou-se central na escalada do partido.

O combate não se faz com silêncio, mas com inteligência. Reage-se ao ruído com jornalismo de dados, análise crítica, contenção editorial e, acima de tudo, com foco na substância, não na espuma. A máquina de ruído alimenta-se de atenção. Sem ela, desliga-se.

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