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Resumo

  • Quando o Departamento de Defesa dos EUA passou a chamar-se Departamento de Guerra, muitos pensaram tratar-se apenas de mais uma jogada provocadora da administração Trump.
  • O problema é que, ao contrário da Guerra Fria, o mundo actual é multipolar, fragmentado, e permeado por actores não-estatais, instáveis e ideologicamente extremados.
  • A retórica trumpista — que trata a guerra como sinal de virilidade e liderança — alimenta esse ciclo.

Quando o Departamento de Defesa dos EUA passou a chamar-se Departamento de Guerra, muitos pensaram tratar-se apenas de mais uma jogada provocadora da administração Trump. Um gesto simbólico para agradar à sua base. Uma manobra de marketing. Mas a história ensina que as palavras têm peso. E quando vêm de uma superpotência armada até aos dentes, podem ser detonadores.

Nos corredores do Kremlin e nas salas de comando de Pequim, esta mudança não foi vista como semântica. Foi interpretada como doutrina. E, mais perigoso ainda, como permissão.

A pergunta é simples e urgente: estaremos a caminhar para uma nova corrida armamentista global?


O ciclo da escalada: ameaça, reacção, rearmamento

A Guerra Fria ensinou-nos que as percepções moldam estratégias. Quando um actor aumenta o seu arsenal ou endurece o seu discurso, os rivais reagem — não apenas aos factos, mas ao que os factos parecem significar. Ao auto-intitularem-se “Departamento de Guerra”, os EUA deixam implícita a disponibilidade para o confronto armado como instrumento político legítimo.

A resposta foi quase imediata. A China anunciou um reforço orçamental de 7,2% nas suas forças armadas. A Rússia, mesmo atolada no pântano ucraniano, não só mantém os investimentos militares como reforça a modernização dos seus mísseis hipersónicos. A Índia anunciou planos para expandir o seu programa nuclear tático. A Coreia do Norte acelerou testes balísticos de longo alcance.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), 2024 marcou o maior aumento global de gastos militares em duas décadas — 2,4 biliões de dólares. Mas o que preocupa não é apenas o montante. É a lógica.


A lógica da destruição “preventiva”

A nova doutrina americana, centrada na “letalidade máxima”, prega a capacidade de eliminar o inimigo antes que este aja. É a velha ideia de first strike, renovada com IA, drones e armas cibernéticas.

Este tipo de estratégia incentiva o que os teóricos chamam de dilema de segurança existencial: cada avanço de um lado é visto como ameaça, e não como dissuasão, do outro. O resultado? Todos armam-se mais. Todos confiam menos. Todos estão mais próximos da catástrofe — sem nunca o admitir.

O problema é que, ao contrário da Guerra Fria, o mundo actual é multipolar, fragmentado, e permeado por actores não-estatais, instáveis e ideologicamente extremados. A cadeia de comando da destruição está hoje mais vulnerável do que nunca.


Armas nucleares: a ilusão do controlo

Hoje, há cerca de 13.000 ogivas nucleares activas no mundo. Mais de 90% estão nas mãos de EUA e Rússia. Mas a proliferação continua: Israel mantém a sua política de ambiguidade; a China recusa limitações formais; o Irão avança com urânio enriquecido; e a Coreia do Norte desafia abertamente tratados internacionais.

As negociações sobre controlo de armas estão paralisadas. Os tratados de limitação mútua — como o New START — estão suspensos. O clima de confiança desapareceu. E a linguagem de “guerra” usada pelos EUA apenas agrava o impasse.

Como lembra a cientista política Beatrice Fihn, laureada com o Nobel da Paz: “Não é possível construir segurança global sob a ameaça permanente de extinção.” Ainda assim, é exactamente isso que as superpotências estão a fazer.


Quem lucra com o medo?

O complexo industrial militar vive uma nova era dourada. As acções da Lockheed Martin, Raytheon e Northrop Grumman dispararam nos últimos trimestres. As encomendas de mísseis, radares, sistemas de IA militar e satélites aumentam mês após mês. Países da Europa Oriental, Médio Oriente e Sudeste Asiático intensificam compras — movidos pelo medo e pela incerteza.

Nos EUA, o orçamento de defesa atinge os 886 mil milhões de dólares, com uma fatia cada vez maior destinada a projectos ofensivos. Mas é um ciclo vicioso: quanto mais se investe em letalidade, mais se legitima a sua necessidade.

A retórica trumpista — que trata a guerra como sinal de virilidade e liderança — alimenta esse ciclo. E o rebranding institucional não é inocente: prepara terreno simbólico para justificar orçamentos, influenciar opinião pública e marginalizar vozes de contenção.


O risco existencial e a banalização do apocalipse

O mais perigoso nesta nova fase não é a guerra em si. É a naturalização da ideia de guerra como horizonte inevitável. Quando uma potência nuclear assume, no seu nome, que se prepara para o confronto, deixa de existir espaço para a surpresa. E esse é o maior risco: quando todos assumem que o desastre é provável, ninguém age para o impedir.

Estamos a assistir à reabilitação da guerra como solução, não como fracasso. E isso representa um retrocesso moral, político e civilizacional.


Conclusão: a guerra começa na linguagem — e pode terminar no silêncio

A escalada global não começou com tanques ou mísseis. Começou com palavras. Com slogans. Com decisões simbólicas transformadas em doutrina.

Ao chamar-se “Departamento de Guerra”, os EUA estão a enviar um sinal ao mundo: estamos preparados para matar, não para negociar. E esse sinal pode desencadear um efeito dominó com consequências irreversíveis.

Não se brinca com o apocalipse. Sobretudo quando se tem o dedo no botão.

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