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Resumo

  • “O uso político da história não é novo, mas o contexto digital amplifica o alcance e a velocidade dessas narrativas”, observa o historiador cultural Luís Trindade.
  • Especialistas em psicologia social explicam que o apelo à nostalgia atua diretamente na dimensão emocional do eleitorado, criando uma sensação de pertença e segurança que contrasta com a incerteza contemporânea.
  • Na Polónia, o partido Lei e Justiça reforça a narrativa de um país vítima e heróico, usando-a para justificar políticas restritivas à imprensa e à independência judicial.

De Varsóvia a Brasília, de Lisboa a Budapeste, o passado é convocado para legitimar políticas do presente. Movimentos populistas exploram mitos nacionais e narrativas glorificadas para mobilizar apoio e justificar medidas autoritárias, muitas vezes ignorando as contradições e sombras desses períodos históricos.

Na Hungria, Viktor Orbán construiu grande parte da sua retórica na ideia de uma “Hungria cristã” ameaçada por inimigos externos, reinterpretando episódios do século XX para consolidar a sua autoridade. No Brasil, o discurso bolsonarista recorre à nostalgia da ditadura militar, omitindo a repressão e exaltando uma suposta “era de ordem”. Em Portugal, persistem visões romantizadas do salazarismo, centradas em estabilidade económica e “moralidade”, sem referência à censura ou à ausência de liberdades.

“O uso político da história não é novo, mas o contexto digital amplifica o alcance e a velocidade dessas narrativas”, observa o historiador cultural Luís Trindade.


Nostalgia como arma emocional

Especialistas em psicologia social explicam que o apelo à nostalgia atua diretamente na dimensão emocional do eleitorado, criando uma sensação de pertença e segurança que contrasta com a incerteza contemporânea. Ao construir um passado “puro” e idealizado, líderes populistas estabelecem um referencial contra o qual o presente parece sempre insuficiente.

Esta estratégia também serve para simplificar debates complexos: em vez de discutir soluções para desafios atuais, propõe-se o regresso a um tempo que nunca existiu tal como é contado.


Casos comparativos

Na Polónia, o partido Lei e Justiça reforça a narrativa de um país vítima e heróico, usando-a para justificar políticas restritivas à imprensa e à independência judicial. Em França, Marine Le Pen invoca um passado “profundamente francês” para argumentar contra a imigração e a integração multicultural.

Apesar das diferenças geográficas e históricas, há um padrão: a construção seletiva do passado como plataforma de mobilização política, frequentemente acompanhada por ataques a instituições independentes e ao pluralismo.


Que história queremos contar?

A disputa pela memória coletiva não é apenas académica; é uma batalha sobre a identidade e o futuro de cada país. Ignorar ou relativizar os usos políticos do passado significa deixar que mitos se transformem em políticas concretas.

A questão que fica é direta: se não discutirmos que história queremos contar, quem o fará por nós — e com que intenções?

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