Resumo
- De acordo com a mais recente análise da Classificação Integrada da Segurança Alimentar em Fases (IPC), a província palestiniana entrou na Fase 5 – o nível mais alto de emergência alimentar.
- O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou o fim das chamadas “pausas táticas” e declarou a cidade uma “zona de combate perigosa”, o que legitima, segundo Telavive, a intensificação das operações militares.
- A acusação formal apresentada pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) ganha tração, alimentada por provas crescentes de que Israel está a usar a fome como arma de guerra.
A fome extrema atingiu oficialmente Gaza. De acordo com a mais recente análise da Classificação Integrada da Segurança Alimentar em Fases (IPC), a província palestiniana entrou na Fase 5 – o nível mais alto de emergência alimentar. Trata-se de um reconhecimento formal daquilo que já se pressentia no terreno: uma crise humanitária de proporções catastróficas, provocada pela destruição deliberada de infraestruturas civis e pelo bloqueio à ajuda humanitária.
Segundo dados da ONU, mais de 500 mil pessoas estão em risco iminente de morrer à fome. O Secretário-Geral, António Guterres, não hesitou em classificar a situação como “um desastre provocado pelo homem” e uma “acusação moral a toda a comunidade internacional”. A fome, sublinhou, “não é consequência de uma catástrofe natural, mas de decisões políticas e militares”.
Colapso total dos sistemas essenciais
Os sistemas de sobrevivência da população de Gaza – água, saúde, alimentação e habitação – colapsaram quase por completo. Cerca de 98% das terras cultiváveis foram destruídas por bombardeamentos ou tornaram-se inacessíveis devido à presença militar israelita. A ONU estima que dezenas de milhares de crianças estejam gravemente desnutridas, muitas à beira da morte por causas evitáveis. Equipas médicas relatam casos de bebés alimentados exclusivamente com água açucarada durante semanas.
As rotas de abastecimento estão sob constante ataque. Os comboios de ajuda são regularmente bloqueados ou atacados, e centenas de palestinianos foram mortos enquanto procuravam comida nas zonas de distribuição. A ajuda humanitária que entra na Faixa de Gaza é escassa, intermitente e sujeita a inspeções e atrasos prolongados.
Como pode o mundo assistir em silêncio?
Netanyahu Avança em Gaza: O Plano de Controle Total e o Custo Humano
O governo israelita aprovou um plano para assumir controlo total sobre a Faixa de Gaza, com início imediato na Cidade de Gaza. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou o fim das chamadas “pausas táticas” e declarou a cidade uma “zona de combate perigosa”, o que legitima, segundo Telavive, a intensificação das operações militares.
Na prática, este novo plano transforma zonas previamente consideradas “seguras” – como al-Mawasi – em alvos militares. Bombardeamentos nestas áreas já provocaram dezenas de mortes entre deslocados. Organizações humanitárias denunciam uma estratégia deliberada para esvaziar Gaza da sua população, forçando deslocações em massa sob pretexto de segurança.
Netanyahu defende a operação como essencial para “eliminar o Hamas”, mas vários analistas, incluindo ex-militares israelitas, acusam-no de instrumentalizar o conflito para sobreviver politicamente. “Esta guerra prolonga-se também para proteger a liderança de Netanyahu”, afirmou Amira Hass, jornalista do Haaretz.
Entretanto, Telavive decidiu cortar completamente a ajuda à Cidade de Gaza, enquanto permite alguma entrada de alimentos em zonas do sul, condicionando a população a abandonar áreas estratégicas.
Gaza e o Tribunal Global: Genocídio em Curso?
A resposta internacional é cada vez mais contundente. Mais de 500 funcionários do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR) pediram que a ONU utilize, publicamente, o termo “genocídio” para descrever a situação em Gaza. A acusação formal apresentada pela África do Sul no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) ganha tração, alimentada por provas crescentes de que Israel está a usar a fome como arma de guerra.
As organizações Human Rights Watch e B’Tselem identificaram práticas sistemáticas que podem constituir crimes de genocídio: impedimento da entrada de ajuda, destruição de infraestruturas vitais, bombardeamento de hospitais, escolas e campos de refugiados, e discursos públicos que desumanizam os palestinianos.
Israel, por sua vez, nega veementemente todas as acusações e insiste no seu direito à autodefesa, apontando o Hamas como responsável pela tragédia. Ainda assim, a pressão diplomática aumenta, com vários países a cortarem laços militares com Israel ou a exigirem um cessar-fogo imediato.
Quantos mais terão de morrer para que a definição de genocídio seja aceite?
Cisjordânia à Beira do Colapso: A Outra Frente Silenciosa
Enquanto Gaza atrai as manchetes, a Cisjordânia mergulha numa espiral de violência pouco noticiada. De janeiro a agosto deste ano, mais de 32 mil palestinianos foram deslocados, e centenas de estruturas foram demolidas por falta de licenças de construção – sistematicamente recusadas pelas autoridades israelitas.
A expansão de colonatos israelitas prossegue a ritmo acelerado, com destaque para o polémico plano E1, que ameaça dividir o território palestiniano em blocos desconexos. A concretização deste plano tornaria inviável a criação de um Estado palestiniano contíguo, destruindo a chamada “solução de dois Estados”.
Milhares de palestinianos vivem sob constante ameaça de expulsão, enquanto os confrontos com colonos armados e forças israelitas se intensificam. A ONU alerta para um “ponto de ruptura iminente” na Cisjordânia, com sinais de colapso institucional e insegurança generalizada.
“Estamos a assistir a uma ocupação cada vez mais violenta e à destruição sistemática das hipóteses de paz”, declarou Francesca Albanese, relatora da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos.
O Silêncio Que Mata
A crise em Gaza e na Cisjordânia não é um acaso histórico. É o resultado de políticas calculadas, ações militares desproporcionadas e da impunidade garantida por um sistema internacional paralisado. A fome em Gaza não é natural. É uma arma. E o mundo, ao não agir, torna-se cúmplice.
A pergunta impõe-se, urgente: o que mais é necessário para que a consciência internacional se transforme em acção?