Resumo
- Na manhã de 15 de abril de 2025, a sala de imprensa do Departamento de Estado dos EUA encheu-se de jornalistas, diplomatas e observadores internacionais para a apresentação do Country Report on Human Rights Practices, a análise anual da situação dos direitos humanos no mundo, produzida pelo governo norte-americano.
- A ausência mais notada não foi a de um dado, nem de uma categoria temática — foi a do próprio Secretário de Estado, Marco Rubio.
- A crise de legitimidade é tão profunda que, pela primeira vez, ONGs como a HRW e a Amnistia recusaram citar o relatório dos EUA como fonte nos seus documentos de 2025.
Na manhã de 15 de abril de 2025, a sala de imprensa do Departamento de Estado dos EUA encheu-se de jornalistas, diplomatas e observadores internacionais para a apresentação do Country Report on Human Rights Practices, a análise anual da situação dos direitos humanos no mundo, produzida pelo governo norte-americano. A ausência mais notada não foi a de um dado, nem de uma categoria temática — foi a do próprio Secretário de Estado, Marco Rubio.
Contrariando décadas de tradição, Rubio não compareceu para apresentar o relatório nem fez qualquer declaração pública. A tarefa foi delegada a um assessor subalterno. O gesto, aparentemente banal, está a ser interpretado em Washington como um sinal político poderoso: a consagração do desinteresse da Administração Trump pelos direitos humanos como pilar da política externa dos EUA.
Um desaparecimento estratégico?
Desde a presidência de Jimmy Carter que os Secretários de Estado norte-americanos assumem pessoalmente a apresentação do relatório. A prática simboliza o compromisso formal da diplomacia dos EUA com os direitos humanos — mesmo quando criticada por hipocrisia ou parcialidade. O próprio Mike Pompeo, sob a primeira administração Trump, manteve essa tradição, embora com um discurso marcadamente ideológico.
Mas em 2025, com Rubio à frente da diplomacia, a simbologia desapareceu com o discurso. Nem uma palavra. Nem um tweet.
“A ausência de Rubio não é casual. É uma mensagem: os direitos humanos deixaram de importar.”
— David Kramer, ex-funcionário do Departamento de Estado
Fontes próximas do Departamento de Estado afirmam que a decisão foi tomada ao mais alto nível e com antecedência. Rubio teria considerado “politicamente arriscado” associar-se a um relatório que, mesmo com todas as omissões, ainda menciona abusos em países aliados. O receio: alienar aliados estratégicos e a base eleitoral mais nacionalista.
Um relatório vazio, um palco vazio
A ausência do chefe da diplomacia coincide com a versão mais controversa do relatório desde a sua criação. O documento de 2025, como revelado anteriormente, foi drasticamente reduzido, reorganizado com categorias vagas e despojado de referências à ONU, à HRW e à Amnistia Internacional. As secções sobre Israel, Arábia Saudita e Egipto foram encurtadas em mais de 80%, omitindo crimes de guerra e repressão.
Segundo o Washington Post, pelo menos dois diplomatas de carreira recusaram apresentar o documento em conferência de imprensa. Um deles, sob anonimato, revelou: “Não queríamos ser cúmplices de uma farsa.”
“O relatório tornou-se tão politizado que até os seus autores evitam defendê-lo publicamente.”
— Anne-Marie Slaughter, ex-diretora de planeamento político do Departamento de Estado
Um secretário em guerra cultural
Rubio, outrora defensor de uma diplomacia baseada em valores, parece ter abraçado integralmente a agenda do Project 2025 — plano da Heritage Foundation que propõe reconfigurar o Estado federal segundo princípios ultraconservadores, abandonando o conceito de direitos humanos universais.
Desde a sua nomeação, o Secretário de Estado:
- Defendeu a suspensão das contribuições dos EUA para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos;
- Vetou declarações multilaterais sobre equidade de género e liberdade de imprensa;
- Promoveu acordos bilaterais com regimes autoritários sem cláusulas de direitos humanos.
“Rubio trocou os princípios pelo cálculo político. Hoje é o rosto do cinismo diplomático.”
— Luis Almagro, ex-secretário-geral da OEA
Repercussões internas e externas
A ausência de Rubio foi notada por diplomatas europeus, analistas da ONU e antigos funcionários da diplomacia norte-americana. Vários jornais internacionais — do Le Monde ao Der Spiegel — destacaram o silêncio como “um sintoma do novo isolacionismo ético dos EUA”.
Internamente, cresce o desconforto entre diplomatas de carreira. Segundo o Foreign Service Journal, mais de 40 funcionários com experiência em direitos humanos solicitaram transferência ou aposentação antecipada desde janeiro. Um número sem precedentes.
A crise de legitimidade é tão profunda que, pela primeira vez, ONGs como a HRW e a Amnistia recusaram citar o relatório dos EUA como fonte nos seus documentos de 2025.
Quando o silêncio fala mais alto
O gesto de não aparecer pode parecer pequeno, mas em diplomacia, a ausência comunica tanto quanto a presença. Marco Rubio, ao virar as costas ao relatório, não está apenas a evitar perguntas incómodas. Está a abandonar um compromisso histórico dos EUA com a verdade — mesmo quando dolorosa, mesmo quando imperfeita.
“Não é um lapso. É uma ruptura.”
— Tom Malinowski, antigo diplomata e congressista
E perante esse vazio institucional, a pergunta impõe-se: se os EUA já não se atrevem a nomear a injustiça, quem o fará?