Resumo
- Após o ataque do Hamas de 7 de outubro, Israel criou uma unidade de inteligência não para operações militares diretas, mas para moldar a narrativa global.
- Criada dias após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, a célula teria como função “usar informação como arma”, tratando os media como “extensão do campo de batalha”.
- Diferente de departamentos tradicionais de segurança, o objetivo declarado não era prevenir ameaças, mas desclassificar e divulgar seletivamente material — mesmo sensível — para justificar operações militares e influenciar a opinião pública internacional.
Após o ataque do Hamas de 7 de outubro, Israel criou uma unidade de inteligência não para operações militares diretas, mas para moldar a narrativa global. Casos documentados levantam acusações graves de desinformação e possíveis crimes de guerra.
Lisboa, 14 ago 2025 — Quando, nas primeiras horas após a explosão no Hospital Al-Ahli, em Gaza, uma gravação atribuída a combatentes do Hamas surgiu nas redes oficiais de Israel, a narrativa parecia clara: o desastre fora provocado por um foguete palestiniano com defeito. Dias depois, peritos forenses e uma investigação independente desmontaram a autenticidade do áudio. O episódio não foi acidental, revela agora um relatório de investigação: fazia parte da estratégia de uma unidade secreta criada no seio da inteligência militar israelita — a chamada Célula de Legitimação.
Missão: moldar perceções, não apenas recolher inteligência
Criada dias após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, a célula teria como função “usar informação como arma”, tratando os media como “extensão do campo de batalha”. Diferente de departamentos tradicionais de segurança, o objetivo declarado não era prevenir ameaças, mas desclassificar e divulgar seletivamente material — mesmo sensível — para justificar operações militares e influenciar a opinião pública internacional.
De acordo com documentos internos, a doutrina inspirava-se no conceito de hasbara, termo usado para descrever ações de diplomacia pública e propaganda pró-Israel.
Métodos e alvos controversos
O relatório detalha práticas que incluem:
recolha e divulgação de alegadas provas do uso de escolas, hospitais e mesquitas pelo Hamas; documentação e difusão de falhas de foguetes palestinianos; identificação de jornalistas locais para apresentá-los como operativos do Hamas, colocando-os sob risco direto.
Há acusações de deturpação de dados, adulteração de documentos e fabrico de “provas” para consumo mediático.
Casos emblemáticos: de Al-Ahli a Al-Shifa
A explosão no Hospital Al-Ahli tornou-se símbolo desta abordagem. A divulgação célere do áudio contestado não foi isolada. A mesma célula esteve ligada a:
alegações de “bebés decapitados” por combatentes palestinianos, nunca comprovadas; apresentação de documentos supostamente do Hamas encontrados no Hospital Al-Shifa, cuja veracidade foi questionada por observadores independentes; acusações contra jornalistas como Anas Al-Sharif (Al Jazeera) e Ismail Al-Ghoul (Al Jazeera), descritos como membros ativos do Hamas sem provas verificáveis; imputação de ligações terroristas a funcionários da UNRWA, agência da ONU, com base em listas cuja origem e autenticidade permanecem obscuras.
O retorno de um fogo mediático
Apesar do investimento em inteligência artificial, redes coordenadas de bots e campanhas em várias línguas, os resultados parecem ter ficado aquém das expectativas. Sondagens internacionais mostram queda significativa no apoio global a Israel e crescimento relativo da simpatia por causas palestinianas. Analistas apontam que a perceção de manipulação fragilizou a credibilidade das narrativas oficiais.
Implicações legais e éticas
O relatório adverte para riscos jurídicos graves: se a caracterização falsa de jornalistas como combatentes resultar em ataques, tal poderá configurar crime de guerra, segundo o Direito Internacional Humanitário. Especialistas sublinham que jornalistas gozam de proteção específica em zonas de conflito, independentemente da sua nacionalidade ou filiação mediática.
Recomendações ignoradas?
Entre as medidas propostas no documento estão:
criação de mecanismos independentes de verificação antes da divulgação de material sensível; reforço da literacia mediática em audiências internacionais para resistir à desinformação; reafirmação do estatuto protegido dos jornalistas em teatros de guerra.
Até ao momento, o Governo israelita não comentou oficialmente as conclusões.
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