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Resumo

  • Sob o pretexto de simplificar e tornar o Código do Trabalho “mais equitativo”, o Executivo propõe alterações que, na prática, estão a provocar uma verdadeira onda de indignação.
  • O Governo defende que o regime de interrupção da gravidez é mais vantajoso, já que garante entre 14 e 30 dias de licença para a mãe e até 15 dias para o pai.
  • Do ponto de vista simbólico, estas alterações apontam para um Estado que deixa de ver a parentalidade como uma questão de bem-estar público e passa a tratá-la como um custo a conter.

A partir de 2025, em nome da modernização legislativa, milhares de mães portuguesas poderão ser obrigadas a justificar, de seis em seis meses, que continuam a amamentar os seus filhos. Como se estivessem sob suspeita. Simultaneamente, o Governo prepara-se para extinguir um direito conquistado com lágrimas: o de faltar ao trabalho em caso de luto gestacional. São medidas cirúrgicas, mas com impacto profundo — na saúde pública, na dignidade parental e na igualdade de género.

Sob o pretexto de simplificar e tornar o Código do Trabalho “mais equitativo”, o Executivo propõe alterações que, na prática, estão a provocar uma verdadeira onda de indignação. Médicos, sindicatos, juristas e cidadãos comuns convergem numa palavra que, apesar de forte, é cada vez mais incontornável: retrocesso.

O Fio da Navalha: Entre a Produtividade e a Intimidade Materna

Até agora, o artigo 47.º do Código do Trabalho era claro e progressista: uma mãe tem direito à dispensa de duas horas diárias para amamentação, “enquanto esta durar”. Sem limite etário. Sem presunção de fraude. Um direito baseado na confiança e na evidência médica de que o leite materno continua a ser benéfico muito para além dos dois anos.

As novas regras querem fixar esse direito apenas até ao segundo aniversário da criança, alinhando-se com o mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O problema? É precisamente esse “mínimo” que muitos pais superam, por escolha informada, por necessidade de saúde ou por vínculo emocional. E agora, serão penalizados por isso?

Mais: a proposta obriga à apresentação de atestados médicos regulares, uma espécie de “prova de vida da amamentação” a cada seis meses. A Ordem dos Médicos já classificou a medida como “um retrocesso legal”, criticando o uso da classe como “carimbadores de mamas”, numa burocratização absurda que prejudica famílias e sobrecarrega ainda mais os cuidados de saúde primários.

Quando a Perda Não Conta: O Silenciamento do Luto Gestacional

Outro ponto polémico é a revogação do direito a faltar por luto gestacional. Actualmente, mães e pais têm direito a três dias de ausência em caso de perda gestacional precoce, sem necessidade de acionar a licença por interrupção voluntária de gravidez. É pouco — mas é algo. Sobretudo, é um reconhecimento simbólico e legal de que o luto parental existe, mesmo quando o bebé ainda não chegou aos braços.

O Governo defende que o regime de interrupção da gravidez é mais vantajoso, já que garante entre 14 e 30 dias de licença para a mãe e até 15 dias para o pai. Mas esta substituição é uma ilusão de ganho: não responde à natureza emocional do luto nem respeita as perdas que não envolvem internamento, cirurgia ou patologias físicas. Segundo a UGT, a proposta “representa uma perda inaceitável de dignidade e reconhecimento do sofrimento”.

Por Trás do Discurso Modernizador: Quem Ganha Com Isto?

Do ponto de vista simbólico, estas alterações apontam para um Estado que deixa de ver a parentalidade como uma questão de bem-estar público e passa a tratá-la como um custo a conter. Há quem fale em medidas “pró-empresas”, escudadas em linguagem igualitária, mas cujo efeito prático é reforçar o peso da maternidade nas mulheres.

No caso da amamentação, a imposição de um prazo fixo e de verificações clínicas é tudo menos neutra. Afeta desproporcionalmente as mulheres, mina a autonomia parental e contradiz os princípios da saúde pública — que promovem precisamente a amamentação prolongada como uma das melhores estratégias preventivas de doenças na infância.

Já no caso do luto gestacional, o argumento da eficiência administrativa parece ignorar o sofrimento invisível de milhares de casais. Quando o direito à dor é substituído pela tecnocracia, o que está a ser perdido é mais do que um par de dias no calendário: é a humanidade da lei.

O Que Dizem os Outros Países?

Nos países nórdicos, que continuam a liderar os rankings de políticas familiares, não há lugar para este tipo de restrições. A Suécia, por exemplo, garante apoio psicológico e social em caso de perda gestacional, independentemente da idade fetal. Na Áustria, a legislação reconhece explicitamente o direito ao luto parental, com licenças adaptadas à situação. Em matéria de amamentação, ambos os países promovem ambientes laborais amigos da parentalidade, sem imposições médicas periódicas.

Aliás, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) insiste: apoiar a amamentação é bom para as empresas. Reduz o absentismo, melhora a saúde das crianças e aumenta a retenção de talento. O que está em causa aqui não é produtividade — é ignorância política.

A Voz das Ruas, das Clínicas e das Casas

Uma petição contra a proposta já recolheu milhares de assinaturas. Mulheres que amamentaram para além dos dois anos falam de “humilhação burocrática”. Homens que perderam filhos antes de nascerem contam como os três dias de luto foram os únicos momentos em que sentiram que o Estado os via. Médicos de família alertam para o tempo perdido em papeladas inúteis quando deveriam estar a tratar doentes reais.

É raro ver tantas vozes tão diferentes em sintonia — e é isso que torna esta reportagem possível e urgente.

Portugal na Encruzilhada

Portugal habituou-nos a ser apontado como um exemplo de boas práticas em políticas familiares. O alargamento das licenças, os incentivos à partilha, a legislação inclusiva: tudo isso colocou o país na vanguarda da UE.

Mas essa imagem está agora em risco. A substituição de direitos simbólicos por obrigações técnicas, a suspeição sobre as mães, a recusa de reconhecer o luto invisível — tudo isto revela uma mudança de rumo. E não é um rumo progressista.

Será que queremos ser o país que vigia a amamentação com formulários médicos? Que retira dias de luto a quem perdeu um filho? Que mede a parentalidade em função da produtividade?

A resposta, como sempre, está na sociedade. Mas também está na lei. E há momentos em que esta precisa de ouvir mais do que os relatórios económicos. Precisa de ouvir as mães. Os pais. Os médicos. As lágrimas.

Porque nenhum progresso vale a pena se for construído à custa da dignidade humana.

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