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Resumo

  • O que estamos a assistir não é apenas a um conflito de narrativas — é um colapso de referências morais universais.
  • O direito internacional, a dignidade humana, a imparcialidade institucional — tudo se torna relativo quando os interesses dos poderosos estão em causa.
  • Quando se aplaude o castigo de quem defende o direito à vida, corrompe-se o próprio conceito de humanidade.

Ensaio sobre o colapso ético do discurso internacional e o perigo existencial para os princípios universais da dignidade humana


Durante séculos, o termo “terrorista” carregou um peso real. Evocava actos de violência deliberada contra civis, a imposição do medo como estratégia política, o desprezo absoluto pela vida humana. Hoje, esse termo é cada vez mais usado como arma retórica — para calar, marginalizar ou criminalizar quem ousa levantar a voz pelos que já não conseguem gritar.

A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, é apenas o exemplo mais visível e recente dessa distorção. Denunciou um possível genocídio em Gaza com base em documentos oficiais, normas jurídicas e dados verificáveis. Foi acusada de “promover o terrorismo”. Alvo de sanções. Censurada em universidades. Difamada em imprensa e redes sociais.

Se isto é possível, o que resta da ética no debate público global? Já vale tudo?


Do combate ao terror ao terror do discurso

O 11 de Setembro deu início a uma era de excepção jurídica. O “combate ao terrorismo” passou a justificar tudo: tortura, vigilância massiva, prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais. Na altura, houve quem alertasse: “estamos a abrir uma caixa de Pandora”.

Essa caixa está hoje bem escancarada — e os seus efeitos atingem não os que pegam em armas, mas os que empunham palavras e relatórios.

Activistas ambientais são rotulados de extremistas. Jornalistas que denunciam crimes de guerra são acusados de espionagem. Relatores da ONU, como Francesca Albanese, são sancionados por “darem voz” a organizações “consideradas terroristas”.

Mas quem decide quem é terrorista? E com que critério?


A falência do discurso moral

O que estamos a assistir não é apenas a um conflito de narrativas — é um colapso de referências morais universais. O direito internacional, a dignidade humana, a imparcialidade institucional — tudo se torna relativo quando os interesses dos poderosos estão em causa.

Há menos de uma década, defender civis em zonas de guerra era visto como dever moral. Hoje, pode ser classificado como “apologia do terrorismo”. Como chegámos aqui?

A resposta é inquietante: desgastámos o valor da verdade até ela se tornar suspeita.


A inversão de sentido: quando a denúncia é o crime

Francesca Albanese não é a única. O padrão repete-se em vários contextos:

  • Julian Assange, perseguido por expor crimes de guerra, tratado como traidor;
  • Kalev Mutond, defensor de vítimas no Congo, ameaçado por “colaborar com grupos armados”;
  • Organizações de direitos humanos palestinianas, classificadas por Israel como “entidades terroristas” sem prova concreta.

O objectivo não é provar ligação ao terrorismo — é criar uma névoa de suspeição, descredibilizar, isolar, silenciar. A calúnia, uma vez lançada, cumpre a sua função: neutraliza a força moral do adversário.


O risco maior: normalização da distorção

A maior ameaça não é que Albanese perca o cargo. É que o mundo ache isso normal.

Quando se torna aceitável punir quem denuncia crimes com base em provas, cria-se um precedente de impunidade institucional. Quando se aplaude o castigo de quem defende o direito à vida, corrompe-se o próprio conceito de humanidade.

Os direitos humanos deixaram de ser uma bússola — são hoje um campo minado de acusações e contra-acusações. A linguagem, que deveria unir, passou a dividir.


Portugal, Europa, ONU: onde está o fio moral?

Portugal, defensor histórico do multilateralismo, calou-se perante as sanções dos EUA contra Albanese. A União Europeia hesita, receosa de perder acesso a mercados ou inteligência partilhada. A ONU, enredada em dependências financeiras e diplomáticas, limita-se a emitir notas vagas.

Mas os valores não se defendem só com comunicados — defendem-se com coragem.

É nestes momentos que as democracias revelam o que são. E o que estão dispostas a abdicar para manter uma paz aparente.


A pergunta que fica: já vale tudo?

Acusar de terrorismo quem denuncia genocídio? Proibir conferências? Cortar fundos a quem fala? Silenciar quem viu e teve a coragem de escrever?

Já vale tudo? A questão não é retórica. É urgente.

Porque, se o mundo continuar a assistir passivamente a este tipo de distorção, estará a autorizar a destruição da verdade como ferramenta de justiça. Estará a consagrar o medo como método. Estará a declarar, de facto, o fim do ideal universal dos direitos humanos.

E aí, não haverá relatório que nos salve.


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