Resumo
- Num país cuja taxa de fertilidade ronda os 1,1 filhos por mulher e em que morrem mais pessoas do que nascem, os imigrantes são hoje o principal antídoto contra o colapso demográfico.
- Retirar milhões de contribuintes jovens e ativos da equação significaria não apenas um buraco orçamental imediato, mas a aceleração da insolvência do sistema de pensões — já pressionado pela queda da natalidade e pelo aumento da longevidade.
- O executivo espanhol chegou a prever a integração de 900 mil imigrantes em situação irregular nos próximos três anos para suprir vagas de emprego e aumentar a arrecadação fiscal.
Uma expulsão em massa empurraria o país para a recessão e desmantelaria os pilares do seu bem-estar social
O que aconteceria se Espanha decidisse remover oito milhões de imigrantes do seu território? Esta hipótese, embora extrema, não é desprovida de ecos na retórica política contemporânea. À boleia do nacionalismo identitário, partidos como o Vox alimentam fantasmas que opõem “nacionais” a “estrangeiros”, ignorando a realidade que se impõe nos números: a economia espanhola é, hoje, estruturalmente dependente da imigração.
Demografia: sem imigração, o país encolhe
Com uma população projetada em 49 milhões de pessoas, Espanha conta com cerca de 9,4 milhões de residentes nascidos no estrangeiro — quase 20 % da população total. Destes, 7,2 milhões são oriundos de países fora da União Europeia. As maiores comunidades são provenientes de Marrocos, Colômbia, Venezuela e Roménia, sendo a América Latina o principal ponto de origem.
Sem o contributo destes imigrantes, o crescimento populacional espanhol desde 2022 teria sido praticamente nulo. Só nesse período, 84 % do aumento populacional deveu-se à imigração. Num país cuja taxa de fertilidade ronda os 1,1 filhos por mulher e em que morrem mais pessoas do que nascem, os imigrantes são hoje o principal antídoto contra o colapso demográfico.
Trabalho: quem segura os sectores essenciais?
Nos campos agrícolas da Andaluzia e da Catalunha, nas cozinhas dos restaurantes, nos estaleiros, nos hotéis e até nos lares de idosos, os imigrantes representam a espinha dorsal da força laboral. Só na agricultura, chegam a constituir até 86 % dos trabalhadores em certas regiões.
Entre 2022 e 2024, 45 % dos novos empregos criados foram ocupados por estrangeiros. Em sectores como hotelaria, comércio e construção, essa percentagem ultrapassa os 60 %. Além disso, muitos destes trabalhadores são jovens e em idade ativa, o que contrasta com o envelhecimento da população espanhola. A média de idade do país desceu de 40 para 38 anos graças à entrada de imigrantes.
Sem esta mão-de-obra, faltariam braços onde os espanhóis já não chegam — por indisponibilidade, por desinteresse, por falta de qualificação ou por condições laborais difíceis. A substituição pura e simples seria impossível.
Fiscalidade e Segurança Social: quem paga as pensões?
Os imigrantes não são apenas força de trabalho. São também contribuintes. Qualquer residente fiscal em Espanha, incluindo estrangeiros, paga impostos progressivos sobre o rendimento e contribui para a segurança social: 6,45 % do seu salário, mais uma contribuição de 30 % por parte dos empregadores.
Esta receita é fundamental para o financiamento do sistema de saúde, pensões e apoios sociais. Retirar milhões de contribuintes jovens e ativos da equação significaria não apenas um buraco orçamental imediato, mas a aceleração da insolvência do sistema de pensões — já pressionado pela queda da natalidade e pelo aumento da longevidade.
A regularização de trabalhadores imigrantes tem sido defendida por múltiplos sectores, do mundo empresarial à Igreja Católica, precisamente como forma de reforçar a base fiscal do país. O executivo espanhol chegou a prever a integração de 900 mil imigrantes em situação irregular nos próximos três anos para suprir vagas de emprego e aumentar a arrecadação fiscal.
Crescimento económico: uma engrenagem sustentada por estrangeiros
Nos últimos anos, Espanha tem crescido acima da média da zona euro. Em 2023, o PIB cresceu cerca de 3 %, comparado com 0,8 % na média europeia. Uma fatia significativa deste desempenho foi sustentada pela população estrangeira: estima-se que metade do crescimento económico se deve à sua presença e atividade.
Além do trabalho direto, os imigrantes alimentam a economia através do consumo, do arrendamento, da escolarização dos filhos, da criação de pequenas empresas. São agentes económicos a tempo inteiro. A sua expulsão implicaria uma quebra abrupta no consumo interno, falências em cadeia e aumento do desemprego entre os próprios cidadãos nacionais, por efeito dominó.
Uma visão sem futuro
Eliminar a população imigrante significaria, na prática, amputar 19 % da população do país, grande parte da qual em idade produtiva. Seria como cortar o oxigénio a um corpo que já respira com dificuldade. Num horizonte de três décadas, Espanha precisa de 30 milhões de novos trabalhadores para garantir a sustentabilidade do seu Estado social. Sem imigração, este objetivo torna-se irrealizável.
Espanha não está sozinha neste dilema. Toda a Europa enfrenta o desafio do envelhecimento e da baixa natalidade. A imigração, longe de ser um problema, é parte da solução. A sua gestão exige políticas sérias de integração, não promessas demagógicas de repatriamento em massa.
Imigração não é um fardo. É um investimento. Cortá-la não resolve os problemas económicos e sociais de Espanha — multiplica-os. Quando o discurso político ignora os dados e alimenta a exclusão, o país não se protege: sabota-se.