Guterres torna-se alvo principal de Israel no confronto com a ONU - Sociedade Civil
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Resumo

  • A decisão de Israel de cortar relações com o gabinete do secretário-geral coloca o antigo primeiro-ministro português no centro de um dos confrontos diplomáticos mais duros do seu mandato.
  • António Guterres entrou esta quinta-feira na fase mais áspera da sua relação com Israel, depois de Telavive ter anunciado o corte de todos os contactos com o gabinete do secretário-geral da ONU, na sequência da inclusão de entidades israelitas numa lista de violência sexual em conflito.
  • O ponto relevante não é a nacionalidade do secretário-geral, mas o que o episódio revela sobre os limites do poder do cargo perante um Estado que decide ignorá-lo.

A decisão de Israel de cortar relações com o gabinete do secretário-geral coloca o antigo primeiro-ministro português no centro de um dos confrontos diplomáticos mais duros do seu mandato.

António Guterres entrou esta quinta-feira na fase mais áspera da sua relação com Israel, depois de Telavive ter anunciado o corte de todos os contactos com o gabinete do secretário-geral da ONU, na sequência da inclusão de entidades israelitas numa lista de violência sexual em conflito.

Para o leitor português, há uma camada que a imprensa internacional trata de passagem: o homem no centro da tempestade é o antigo primeiro-ministro de Portugal, a figura nacional mais influente alguma vez colocada no sistema multilateral. O confronto chega no último troço do seu mandato à frente das Nações Unidas.

De “sob aviso” a alvo declarado

A relação não azedou agora. Em agosto de 2025, Guterres colocou Israel “sob aviso” para potencial inclusão na lista, no mesmo momento em que adicionava o Hamas ao registo. Citou, na altura, preocupações sérias sobre padrões de abuso — que Israel sempre negou.

Durante o ano que se seguiu, houve reuniões entre a delegação de Danny Danon e representantes de Guterres. Israel entregou documentos, dados e uma resposta detalhada às alegações, e diz ter convidado pessoal da ONU a visitar locais para examinar o que classifica de acusações falsas. A decisão final manteve o país na lista.

O resultado foi a frase que correu o mundo. “Acabámos com este secretário-geral”, disse Danon. A linguagem é pessoal, dirigida ao cargo e ao homem.

O que está em jogo para a figura portuguesa

A tentação, vista de Lisboa, é ler isto pela lente nacional — defender Guterres por ser português. Seria um erro de análise. O ponto relevante não é a nacionalidade do secretário-geral, mas o que o episódio revela sobre os limites do poder do cargo perante um Estado que decide ignorá-lo.

Poderia argumentar-se que um corte de relações é sobretudo simbólico. Em parte é. Mas o símbolo tem peso quando vem de um aliado histórico do Ocidente e atinge um secretário-geral em fim de funções, com margem reduzida para reconstruir pontes antes de sair.

Dujarric resumiu a posição da ONU numa frase. “A porta do secretário-geral permanece aberta.” Do outro lado, a porta foi fechada com estrondo.

Resta uma pergunta sem resposta fácil: que herança diplomática deixa quem termina o mandato em rutura aberta com um dos atores centrais do conflito que definiu o seu tempo no cargo.

Fontes

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