Resumo
- A crise humanitária em Gaza agravou-se após Israel encerrar, em 28 de fevereiro, as passagens de entrada no território palestiniano, no início das operações militares israelitas e norte-americanas contra o Irão.
- A reabertura limitada de Rafah e de outros pontos de passagem permitiu evacuações médicas e a entrada de alguma ajuda, mas não eliminou a escassez, a doença nem a exposição diária da população civil a ataques e deslocações.
- Em 15 de maio, a OCHA descrevia condições de vida “dire” em Gaza, com a maioria da população deslocada e exposta a riscos sanitários e ambientais contínuos.
A crise humanitária em Gaza agravou-se após Israel encerrar, em 28 de fevereiro, as passagens de entrada no território palestiniano, no início das operações militares israelitas e norte-americanas contra o Irão. A reabertura limitada de Rafah e de outros pontos de passagem permitiu evacuações médicas e a entrada de alguma ajuda, mas não eliminou a escassez, a doença nem a exposição diária da população civil a ataques e deslocações.
A pergunta lançada pela Al Jazeera num debate transmitido a 5 de abril é desconfortável: terá Gaza sido empurrada para fora do campo de visão internacional à medida que a guerra regional ocupa manchetes, reuniões diplomáticas e antenas? O programa reuniu o cirurgião ortopédico Mohammed Tahir, o investigador Alex de Waal e o analista palestiniano Xavier Abu Eid. O ponto de partida era inequívoco: mesmo após o cessar-fogo de outubro, a vida civil em Gaza continuou cercada por ataques, restrições e falta de bens essenciais.
A fronteira que decide quem recebe tratamento
Rafah não é uma abstracção diplomática. É uma passagem entre a doença e o hospital, entre a espera e uma hipótese de sobrevivência.
A Organização Mundial da Saúde descreveu, em abril, o percurso das evacuações médicas: doentes transportados até pontos de recolha, depois conduzidos até Rafah, onde a Autoridade Palestiniana e a missão europeia verificam identidades antes da entrada no Egipto. Entre 11 e 17 de maio, 59 doentes, seis dos quais crianças, saíram de Gaza por essa via, acompanhados por 87 cuidadores, informou o gabinete humanitário das Nações Unidas, OCHA.
São números concretos. E são também um retrato da insuficiência. Em fevereiro, quando Rafah reabriu de forma restrita, a OMS indicava que mais de 18.500 doentes aguardavam evacuação, entre feridos graves, pessoas com cancro e doentes crónicos; mais de 3.000 eram crianças, segundo a UNICEF.
Daquela passagem aberta, restou uma porta estreita para uma fila imensa.
Comida entra aos solavancos
A crise humanitária em Gaza não se mede só nas ambulâncias. Mede-se em farinha, combustível, água segura, peças para geradores e capacidade de manter uma cozinha comunitária a funcionar.
A OCHA registou que, entre 25 e 31 de março, 10.559 paletes de ajuda administrada pelas Nações Unidas e parceiros foram descarregadas no lado israelita de Kerem Shalom. No total, março ficou pelas cerca de 47.300 paletes, abaixo das 54.500 de fevereiro e das 58.200 de janeiro. Nessa altura, as organizações humanitárias dependiam há cinco semanas de uma única travessia para repor reservas, devido ao encerramento de Zikim, no norte.
Zikim reabriu em abril. A entrada de ajuda aumentou numa semana. Ainda assim, a melhoria não apagou os bloqueios acumulados, nem recompôs hospitais, redes de saneamento ou famílias desalojadas. Em meados de maio, a OCHA assinalava que só um em cada dois camiões vindos do Egipto conseguiu descarregar nos pontos sob controlo israelita durante os primeiros onze dias do mês.
A fome não precisa de silêncio absoluto. Basta-lhe uma ajuda irregular.
O cessar-fogo que não trouxe segurança
Poderiam argumentar que existe um cessar-fogo, que Rafah voltou a funcionar em dias seleccionados e que entram mantimentos. É verdade: houve avanços limitados, e ignorá-los seria desonesto. Também é verdade que esses movimentos não equivalem a protecção efectiva da população.
Em 15 de maio, a OCHA descrevia condições de vida “dire” em Gaza, com a maioria da população deslocada e exposta a riscos sanitários e ambientais contínuos. A mesma actualização citava uma estimativa da OMS: mais de 43.000 pessoas sofreram lesões que lhes alteraram a vida, enquanto os serviços de reabilitação permaneciam sobrecarregados.
Há áreas cinzentas na contabilidade de uma guerra: números revistos, acessos incompletos, versões em confronto. Não há área cinzenta no dever de permitir comida, tratamento médico e segurança a civis.
A deslocação da atenção mediática para o Irão não criou a catástrofe em Gaza. Tornou-a mais fácil de suportar politicamente por quem controla fronteiras, bombardeamentos e negociações. É esse o risco da fadiga internacional: a violência continua, mas o escândalo perde volume.
A crise humanitária em Gaza não desapareceu. Foi empurrada para a margem do ecrã.
E uma criança que espera por evacuação não vive de margens.