Resumo
- A rede de internet da Marinha bloqueia o acesso aos sites do Bloco de Esquerda, do PCP, do Livre e do Partido Socialista, mas mantém disponíveis os de partidos à direita e à extrema-direita.
- A Armada admitiu que vai avaliar, junto das plataformas que fazem essa filtragem, “a possibilidade de parametrizar manualmente alguns dos critérios”, de forma a “eliminar ou mitigar os bloqueios identificados”.
- “Quando uma força armada limita o acesso dos seus militares às fontes dos partidos segundo um padrão ideológico tão evidente, o problema deixa de ser informático e passa a ser político.
A Armada confirma que sites de quatro partidos parlamentares de esquerda estão inacessíveis na sua rede interna. Justifica com segurança operacional. O Bloco pede ao ministro da Defesa uma averiguação autónoma.
A rede de internet da Marinha bloqueia o acesso aos sites do Bloco de Esquerda, do PCP, do Livre e do Partido Socialista, mas mantém disponíveis os de partidos à direita e à extrema-direita. O Bloco pediu esta semana esclarecimentos ao ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo.
A pergunta parlamentar foi entregue pelo deputado único do Bloco, Fabian Figueiredo, depois de a página “Contra Narrativa” ter divulgado capturas de ecrã das mensagens de bloqueio. Nos sites do Bloco, do PCP e do Livre surge a indicação “Conteúdo bloqueado por políticas de proxy — Marinha”. No do PS aparece um aviso a indicar que o acesso não é possível.
A versão da Armada
A Marinha confirmou o bloqueio à agência Lusa e rejeitou qualquer motivação ideológica. Atribuiu o caso a “questões técnicas” ligadas a “segurança operacional” e ao “atual ambiente estratégico de competição geopolítica”. Argumentou ainda que “a exposição irrestrita ao domínio externo amplia a superfície de ataque e facilita atos de exploração que podem comprometer sistemas”.
O porta-voz do ramo acrescentou que o bloqueio é “um processo automático e externo à Marinha”. A Armada admitiu que vai avaliar, junto das plataformas que fazem essa filtragem, “a possibilidade de parametrizar manualmente alguns dos critérios”, de forma a “eliminar ou mitigar os bloqueios identificados”.
O padrão não é tão limpo como parece
A própria Marinha deu exemplos que complicam a narrativa de filtragem cirúrgica à esquerda. O site do PCP está bloqueado, mas o da CDU — coligação que inclui os comunistas — é acessível. O site do PCTP-MRPP, também à esquerda, é acessível. Já os do PPM e do ADN, ambos à direita, estão bloqueados.
Esse pormenor não fechou a discussão. Para Fabian Figueiredo, a explicação técnica não dispensa escrutínio. “Que política de proxy é esta, que filtra com tanta precisão cirúrgica exatamente a esquerda parlamentar?”, interroga na pergunta dirigida ao Governo. “Quando uma força armada limita o acesso dos seus militares às fontes dos partidos segundo um padrão ideológico tão evidente, o problema deixa de ser informático e passa a ser político.”
Três perguntas ao Governo
O Bloco fez três exigências ao executivo. Que o ministro informe sobre o que sabe da situação. Que mande averiguar de forma autónoma as causas técnicas, para confirmar que não há motivação política. E que garanta que o mesmo bloqueio não ocorre nas redes dos outros ramos das Forças Armadas — Exército e Força Aérea.
Daquela promessa de mitigação manual, restou por agora apenas o anúncio. À hora de fecho desta edição, o Ministério da Defesa não tinha respondido à pergunta parlamentar.