Reforma Agrária: a revolução no campo que dividiu o Alentejo - Sociedade Civil
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Resumo

  • Depois do 25 de Abril, sobretudo em 1975, trabalhadores rurais ocuparam grandes propriedades no Alentejo e no Ribatejo, criaram unidades colectivas de produção e desafiaram uma estrutura latifundiária marcada por décadas de desigualdade, baixos salários e poder patronal.
  • A chamada Zona de Intervenção da Reforma Agrária abrangia sobretudo o sul do país, onde o latifúndio era mais expressivo.
  • O objectivo político era transformar a estrutura fundiária, combater o desemprego rural e criar formas colectivas ou cooperativas de exploração agrícola.

A Reforma Agrária foi uma das faces mais intensas do PREC no sul de Portugal. Depois do 25 de Abril, sobretudo em 1975, trabalhadores rurais ocuparam grandes propriedades no Alentejo e no Ribatejo, criaram unidades colectivas de produção e desafiaram uma estrutura latifundiária marcada por décadas de desigualdade, baixos salários e poder patronal.
Para muitos trabalhadores, foi a primeira vez que a terra pareceu pertencer a quem a trabalhava. Para muitos proprietários, foi expropriação, abuso e violência política. A Reforma Agrária tornou-se uma das grandes linhas de fractura da revolução portuguesa.
No Alentejo, Abril não foi apenas cravo e canção. Foi terra.
O latifúndio antes de Abril
Antes da revolução, grande parte do Alentejo era marcada por latifúndios, trabalho sazonal, baixos salários e forte dependência dos trabalhadores em relação aos grandes proprietários. A pobreza rural era profunda. O desemprego sazonal fazia parte da vida. A sindicalização livre era proibida e a contestação podia ser reprimida.
A estrutura social era rígida. De um lado, proprietários com terra, influência local e poder económico. Do outro, assalariados rurais, jornaleiros, famílias dependentes do trabalho agrícola e comunidades inteiras sujeitas ao ritmo das campanhas.
O Estado Novo valorizava uma imagem rural e ordeira do país, mas essa ordem escondia desigualdade. A terra era também poder político.
Depois de Abril, a pressão sobe
O 25 de Abril abriu espaço à organização sindical, às reivindicações salariais e à contestação no campo. Trabalhadores rurais começaram a exigir melhores salários, emprego, direitos e acesso à terra. O PCP e sindicatos agrícolas tiveram forte influência em várias zonas do Alentejo.
A tensão cresceu num contexto nacional já radicalizado: governos provisórios, nacionalizações, tentativa de golpe de 11 de Março, medo de contra-revolução e disputa entre projectos políticos. A Reforma Agrária não aconteceu num laboratório. Aconteceu num país em ebulição.
Poderiam argumentar que as ocupações foram ilegais ou abusivas. Em muitos casos, começaram de facto por acção directa, antes de enquadramentos legais completos. Mas também é verdade que respondiam a uma desigualdade histórica que o sistema anterior mantivera pela força. A questão central é precisamente essa: quando a lei protege durante décadas uma injustiça, a ruptura tende a nascer fora da normalidade legal.
Ocupações de terras
Em 1975, multiplicaram-se ocupações de herdades. Trabalhadores entravam nas propriedades, organizavam produção, inventariavam máquinas, gado e culturas, e criavam novas formas de gestão colectiva.
Surgiram Unidades Colectivas de Produção, conhecidas como UCP. A ideia era produzir colectivamente, garantir emprego, melhorar salários e colocar a terra ao serviço da comunidade. Para muitos trabalhadores rurais, foi uma experiência de dignidade inédita.
A ocupação tinha também uma dimensão simbólica poderosa. A herdade deixava de ser espaço fechado do proprietário. Passava a ser território disputado por quem sempre a trabalhara.
A lei e a Zona de Intervenção da Reforma Agrária
O processo foi enquadrado por legislação que definiu zonas de intervenção e critérios para expropriação ou ocupação de grandes propriedades. A chamada Zona de Intervenção da Reforma Agrária abrangia sobretudo o sul do país, onde o latifúndio era mais expressivo.
O objectivo político era transformar a estrutura fundiária, combater o desemprego rural e criar formas colectivas ou cooperativas de exploração agrícola.
Mas a aplicação foi marcada por conflitos, pressões locais, decisões apressadas e disputas partidárias. Nem tudo foi planeado com rigor. Nem tudo foi espontâneo. A Reforma Agrária misturou justiça social, estratégia política, improviso administrativo e confronto ideológico.
Quem apoiava?
Apoiavam sobretudo trabalhadores rurais, sindicatos agrícolas, sectores da esquerda revolucionária e o Partido Comunista Português, com forte implantação no Alentejo. Para estes sectores, a Reforma Agrária era uma das conquistas maiores de Abril.
O argumento era claro: durante décadas, poucos tinham possuído muito e muitos tinham vivido quase sem nada. Democratizar o país exigia democratizar a terra. Não bastava votar se a estrutura económica local continuasse intocável.
Para muitos assalariados rurais, a Reforma Agrária trouxe emprego mais estável, participação em decisões e sentimento de pertença. A revolução deixava de ser discurso de Lisboa e entrava no campo.
Quem se opunha?
Oposição veio de proprietários, sectores conservadores, partidos à direita, parte do PS em determinados momentos e críticos que viam nas ocupações uma ameaça à propriedade privada, à produtividade e ao Estado de direito.
Para os proprietários, a Reforma Agrária significou perda de terras, casas, máquinas, gado e património familiar. Muitos sentiram-se perseguidos ou expulsos. Alguns tinham explorado trabalhadores em condições duras; outros consideravam-se produtores legítimos apanhados numa vaga política injusta.
A memória dos proprietários e a memória dos trabalhadores raramente coincidem. Uma fala de abuso revolucionário. A outra fala de libertação social. O jornalismo deve ouvir ambas, sem fingir que o poder histórico de cada lado era igual.
Produziu mais ou menos?
A produtividade da Reforma Agrária continua a ser tema de debate. Defensores sublinham a manutenção de emprego, a dinamização social e experiências produtivas bem-sucedidas. Críticos apontam que muitas UCP enfrentaram problemas de gestão, investimento, organização, acesso a crédito, mercados e eficiência.
A verdade varia por caso. Algumas unidades funcionaram melhor do que outras. Algumas foram vítimas de bloqueios políticos e económicos. Outras sofreram de má gestão, excesso de assembleísmo ou falta de competências técnicas.
Reduzir tudo a sucesso popular ou desastre económico é transformar História em panfleto. O balanço tem de distinguir territórios, culturas, lideranças, recursos e contexto.
O recuo e a devolução de terras
Depois do 25 de Novembro de 1975 e da estabilização democrática, a Reforma Agrária começou a recuar. Governos posteriores alteraram legislação, devolveram terras a antigos proprietários ou reorganizaram explorações. As UCP perderam força e muitas desapareceram.
Para os trabalhadores, esse recuo foi vivido como traição a uma conquista revolucionária. Para proprietários, foi reposição parcial da justiça e da legalidade. Para o Estado democrático, foi tentativa de normalizar um conflito que continuava a incendiar o sul.
O fim da Reforma Agrária revolucionária não apagou a memória. No Alentejo, ela continua presente em famílias, cooperativas, canções, sedes sindicais, relatos de antigos trabalhadores e ressentimentos que atravessam gerações.
O Alentejo como lugar de memória
A Reforma Agrária não pode ser entendida sem o Alentejo: a paisagem larga, a concentração fundiária, a cultura política comunista, a memória de pobreza rural, as ceifas, os montes, as vilas brancas, a dureza do trabalho agrícola.
Ali, Abril teve uma cor social própria. Não foi apenas liberdade de imprensa ou queda da polícia política. Foi salário, terra, assembleia, tractor, herdade ocupada, plenário e cantina colectiva.
Para uma reportagem, o Alentejo continua a ser território essencial. Há antigos trabalhadores rurais que recordam o período como o momento mais digno das suas vidas. Há antigos proprietários que o recordam como trauma. A tensão entre estas memórias é o próprio tema.
Porque a Reforma Agrária ainda importa
A Reforma Agrária importa porque colocou no centro uma pergunta que continua actual: a quem serve a terra? Ao proprietário, ao trabalhador, à comunidade, ao mercado, ao Estado, ao ambiente, à produção alimentar?
Hoje, o debate já não é o mesmo de 1975. Fala-se de agricultura intensiva, água, barragens, olival, fundos europeus, despovoamento, trabalhadores migrantes, concentração fundiária e alterações climáticas. Mas a questão de fundo permanece: o campo não é apenas paisagem. É poder económico e social.
A Reforma Agrária dividiu o Alentejo porque mexeu no que havia de mais antigo: a propriedade da terra. Para uns, foi justiça tardia. Para outros, violência revolucionária. Para todos, foi a prova de que Abril não ficou nas cidades.
No sul, a revolução teve mãos calejadas e cheiro a terra.
36 e 37
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