Unidade da esquerda contra Ventura: consegue unir-se para governar? - Sociedade Civil
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Resumo

  • exige pactos sobre impostos, sobre despesa, sobre migrações, sobre segurança, sobre o que se promete e o que se corta.
  • partidos à esquerda do PS encolheram, o PS perdeu centralidade e o debate público deslocou-se para temas em que a direita fala com mais agressividade e menos pudor.
  • é o campo onde se mede a capacidade da esquerda para ser alternativa e não apenas barreira.

A unidade da esquerda mostrou músculos quando o adversário tinha nome e cara. Nas presidenciais, António José Seguro venceu André Ventura com 66,82% contra 33,18% na segunda volta, segundo os resultados oficiais. E essa vitória não nasceu do entusiasmo; nasceu de uma convergência defensiva. O Livre formalizou apoio a Seguro logo após a primeira volta. Outros partidos e figuras seguiram o mesmo instinto: “agora não é hora de purismos”.

A pergunta, porém, é mais dura do que o aplauso da noite eleitoral: a unidade da esquerda serve para bloquear Ventura, mas serve para governar um país com orçamento, saúde, habitação e salários?

Frente de bloqueio não é programa de Governo

Unir contra alguém é mais fácil do que unir por algo. A esquerda conseguiu uma frente ampla quando a escolha era binária e simbólica: Belém como travão político, Ventura como ameaça difusa. Mas governar é outra geometria: exige pactos sobre impostos, sobre despesa, sobre migrações, sobre segurança, sobre o que se promete e o que se corta.

Poderiam dizer: “Se conseguiram 67% num frente-a-frente, conseguem uma maioria social para governar.” É tentador, mas enganador. Presidenciais medem rejeição e confiança num perfil; legislativas medem interesses e identidades. E aí a esquerda tem feridas abertas: partidos à esquerda do PS encolheram, o PS perdeu centralidade e o debate público deslocou-se para temas em que a direita fala com mais agressividade e menos pudor.

A prova de fogo chama-se Parlamento

O caso do Tribunal Constitucional é um retrato do dilema. O PS ameaça reduzir diálogo se for excluído das nomeações; o PSD admite maiorias alternativas; e o Livre tenta construir uma solução que mantenha o Chega fora do Palácio Ratton. Isto não é detalhe técnico: é o campo onde se mede a capacidade da esquerda para ser alternativa e não apenas barreira.

Uma micro-história ajuda. No café em frente ao Largo de São Bento, um militante socialista de meia-idade olha para a televisão sem som e diz, entre dentes: “Ganhar ao Ventura é uma coisa. Ganhar a vida das pessoas é outra.” Não é uma tese académica. É cansaço.

Concessão honesta: há sinais de maturidade. A esquerda soube escolher o essencial no momento crítico, sem espalhafato. Isso conta. Mas há zonas cinzentas que não se resolvem com apelos à “frente democrática”: divergências sobre NATO e guerra, sobre imigração e integração, sobre regras orçamentais, sobre o papel do Estado na economia, sobre como financiar políticas públicas sem vender ilusões.

E aqui entra a inversão sintática, porque às vezes a frase precisa de virar do avesso para ficar verdadeira: de uma vitória contra Ventura, não nasce automaticamente uma maioria para governar.

Frase de impacto: bloquear o perigo é urgente; construir futuro dá trabalho — e exige contas.

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