Resumo
- Em 22 de dezembro de 2025, o Tribunal Local Cível de Lisboa ordenou ao Chega a retirada, em 24 horas, de cartazes da campanha presidencial de André Ventura com a frase “Os ciganos têm de cumprir a lei”.
- Mas o espaço público não é um ringue sem regras — e a democracia não tem obrigação de financiar, normalizar ou tolerar mensagens que estigmatizam minorias em nome de votos.
- quando a política escolhe a xenofobia, o país inteiro paga a fatura — primeiro em silêncio, depois em violência.

Em 22 de dezembro de 2025, o Tribunal Local Cível de Lisboa ordenou ao Chega a retirada, em 24 horas, de cartazes da campanha presidencial de André Ventura com a frase “Os ciganos têm de cumprir a lei”. A decisão considerou a mensagem discriminatória, dirigida a uma minoria étnica, e com potencial para incitar ódio; fixou ainda uma sanção de 2.500 euros por cartaz e por dia em caso de incumprimento. (Reuters)
Ventura respondeu com o guião habitual: disse que estava “em causa” a liberdade de expressão e anunciou intenção de recorrer. (RTP) Só que aqui a liberdade não é o centro. O centro é a operação política: transformar uma comunidade inteira num suspeito coletivo — e vender isso como “senso comum”.
O truque: vestir racismo com a farda da “lei e ordem”
Há uma diferença entre exigir cumprimento da lei e insinuar que um grupo, por existir, é menos cumpridor. Ventura sabe-o. E, mesmo assim, escolheu a generalização como cartaz. Não apontou factos, nem políticas, nem dados; apontou identidade. Chega e xenofobia encontram-se precisamente neste ponto: quando a política deixa de falar de problemas concretos e passa a falar de “gente” como problema.
A própria juíza foi explícita: os cartazes agravam estigma e preconceito e fomentam intolerância, segregação e discriminação — “e, no limite, ódio”. (Reuters) E isto importa porque a propaganda moderna raramente grita “ódio”. Sorri. Diz “ordem”. Diz “normalidade”. Diz “lei”.
Micro-história: a paragem do autocarro e a humilhação útil
Na Moita (onde houve cartazes), uma mulher Roma espera pelo autocarro ao fim do dia. Trabalhou, pagou contas, fez a vida — e, ainda assim, lê “os ciganos” num outdoor como quem leva uma chapada em público. O homem ao lado não diz nada, mas olha. Ela percebe. O cartaz não lhe pede para cumprir a lei; pede-lhe para carregar o estigma no caminho para casa. (ECO)
É assim que o racismo funciona no quotidiano: não precisa de multidões, basta uma frase repetida em grande formato.
“Mas há problemas reais.” Sim — e é por isso que Ventura é tóxico
Concessão honesta: existem conflitos locais, pobreza persistente, abandono escolar, discriminação no acesso à habitação e ao trabalho. Tudo isso merece debate duro e políticas exigentes. Só que Ventura não está a propor soluções; está a marcar um alvo. E quando se marca um alvo, as pessoas deixam de discutir medidas e começam a discutir se aquele “outro” merece direitos.
A objeção do leitor é previsível: “Isto não é censura? Ele não pode dizer o que pensa?” Pode pensar o que quiser. Mas o espaço público não é um ringue sem regras — e a democracia não tem obrigação de financiar, normalizar ou tolerar mensagens que estigmatizam minorias em nome de votos. O tribunal, aqui, não “calou” um político: impôs um limite à discriminação. (Reuters)
O alerta sério: não é “ser nazi” — é reabrir a porta da desumanização
A comparação com o nazismo é, muitas vezes, usada sem critério. O rigor manda separar planos: em 1938, o Estado nazi assinava decretos para “combater” a chamada “praga cigana”, convertendo preconceito em política de perseguição. Em Portugal, em 2025, vemos o inverso: instituições democráticas a travar um impulso discriminatório.
Mas não nos enganemos: o perigo democrático não depende de haver decretos amanhã. Depende de, hoje, aceitarmos que um candidato presidencial trate uma minoria como categoria suspeita — e que isso seja apenas “campanha”.
Frase de impacto: quando a política escolhe a xenofobia, o país inteiro paga a fatura — primeiro em silêncio, depois em violência.