Resumo
- a centralidade das redes sociais para a máquina de comunicação do Chega e a dependência do ecossistema de media das regras de plataformas privadas.
- Um estudo de monitorização publicado em maio de 2025, encomendado a uma empresa de análise de redes, concluiu que metade das contas que comentaram os perfis do PS, PSD e Chega no X durante a campanha eram inautênticas.
- No terreno europeu, a Comissão Nacional de Eleições assinalou em 2024 conteúdos patrocinados no Instagram e Facebook com associações falsas ao Chega, incluindo a circulação do primeiro deepfake de um líder em contexto de europeias em Portugal.
Quem empurra a conversa pública em Portugal quando a política salta para o ecrã? No ecossistema digital, o Chega e André Ventura transformaram redes sociais em campo de batalha, combinando conteúdos hiperemocionais com técnicas de manipulação digital para maximizar alcance, ditar agendas e condicionar o debate. Quem, quando, onde, porquê e como: a tática opera em ciclos curtos, cruza plataformas e recorre a perfis falsos para amplificar mensagens. E o algoritmo faz o resto. Será isto orgânico ou engenharia social disfarçada?
A fábrica do alcance: do TikTok ao X, um ecossistema afinado
Entre 2024 e 2025, as contas dos partidos e candidatos cresceram a dois dígitos, mas com uma tendência clara: Chega e André Ventura lideraram em seguidores na maioria das plataformas, com destaque para TikTok — a rede que mais aumentou de peso entre eleições. Em 2025, os candidatos ultrapassaram os próprios partidos em seguidores; Ventura surge no topo do pelotão, excetuando o X, onde a Iniciativa Liberal desponta entre os partidos. Estes números importam porque definem quem entra primeiro no feed e com que intensidade.
O alcance, porém, não explica tudo. Em abril de 2024, a Meta restringiu a página oficial do Chega no Facebook por dez anos, alegando violações reiteradas às regras — incluindo conteúdos associados a discurso de ódio e incitamento. O partido classificou a medida como “censura”, anunciou ação judicial e passou a publicar através de páginas-satélite e partilhas. A decisão expôs duas verdades incômodas: a centralidade das redes sociais para a máquina de comunicação do Chega e a dependência do ecossistema de media das regras de plataformas privadas.
A montante, a paisagem de desinformação em Portugal evoluiu: a ameaça é “moderada”, mas crescente; os media tradicionais ainda dominam, embora influencers e páginas político-partidárias marquem a cadência das conversas. O país carece de uma autoridade coordenadora e de métricas regulares sobre o impacto cumulativo da manipulação online. É um vazio que favorece quem domina o jogo de atenção.
Perfis falsos e campanhas sombra: quando o ruído é programado
A suspeita de perfis falsos deixou de ser rumor e ganhou dados. Um estudo de monitorização publicado em maio de 2025, encomendado a uma empresa de análise de redes, concluiu que metade das contas que comentaram os perfis do PS, PSD e Chega no X durante a campanha eram inautênticas. Muitas atacaram PS e PSD e, em simultâneo, amplificaram mensagens pró-Chega e pró-Ventura — sinal de operações coordenadas de influência. O retrato é de “manipulação da conversa” com impacto potencial na perceção dos eleitores.
No terreno europeu, a Comissão Nacional de Eleições assinalou em 2024 conteúdos patrocinados no Instagram e Facebook com associações falsas ao Chega, incluindo a circulação do primeiro deepfake de um líder em contexto de europeias em Portugal. A fronteira entre propaganda agressiva, desinformação e operações de engodo tornou-se porosa. Quem financia, segmenta e otimiza estes conteúdos? Sem transparência plena de bibliotecas de anúncios e redes de difusão, a resposta fica a meio.
Este ruído sincronizado funciona por saturação. Gera “prova social” artificial — muitos comentários, muitas partilhas — e engana o olhar apressado do algoritmo, que premia tração precoce. Estudos sobre Facebook em língua portuguesa mostram que posts com novidade, emoção intensa e enquadramento doméstico disparam interações, sobretudo quando recorrem a simplificações morais. A engenharia não precisa de milhares de contas: precisa de uma centena bem orquestrada e de conteúdo pronto a viralizar.
O desenho da mensagem: gatilhos, clipes e “prova” anedótica
A estratégia digital do Chega segue um padrão recorrente. Primeiro, um vídeo curto com cenário de urgência: crime, conflito, “descontrolo”. Segundo, a ancoragem emocional — indignação, medo, repulsa. Terceiro, o call to action: “partilha”, “denuncia”, “exige”. No Facebook e no TikTok, Ventura encena confrontos simbólicos, condensa slogans e reforça autoridade performativa: tom grave, números soltos, cenários oficiais. O formato privilegia o clipe, não o contexto; a exceção, não a série longa de dados.
Quando há controvérsia, vem o contra-frame: “censura”, “sistema”, “media hostis”. A colisão rende atenção adicional e novas partilhas. E o algoritmo, sensível à cadência emocional, amplia o alcance. Em paralelo, redes informais no Telegram e páginas agregadoras no Instagram reencaminham conteúdos, reforçando a impressão de ubiquidade. O efeito final é uma manipulação digital que transforma casos isolados em “tendências” e suspeitas em “factos” a golpes de repetição. É ruído ou realidade?
Bots, contas falsas e métricas: o que sabemos e o que falta medir
Operações de influência não se esgotam em bots clássicos. Hoje, o grosso do impacto nasce de “contas inautênticas coordenadas” que parecem pessoas reais, mas trabalham em turnos para inflar hashtags, atacar adversários e legitimar narrativas. A análise independente em Portugal ainda é escassa e fragmentada; contudo, os sinais recentes alinham com o padrão internacional: picos de contas novas, clusters que replicam texto e cadência invulgar, e anomalias no rácio entre comentários e seguidores.
Relatórios europeus alertam para a necessidade de auditorias recorrentes às plataformas em português europeu, com amostras públicas e métodos reprodutíveis. Enquanto isso não acontece, o escrutínio jornalístico e acadêmico tem de colar peças: dados de bibliotecas de anúncios, registos de interações públicas, amostragens com CrowdTangle ou APIs abertas, e validação cruzada com verificadores. O objetivo não é “caçar likes”, é identificar padrões de manipulação digital antes que se tornem normalidade.
Porquê funciona: algoritmos recompensam intensidade, não verdade
A arquitetura das redes sociais favorece conteúdos com saliência emocional. Investigação recente mostra que negatividade, proximidade nacional e novidade aumentam a propensão a clicar e comentar. É cartesiano: se um vídeo sugere ameaça imediata, a partilha acelera; se usa um “nós” vítima e um “eles” culpado, o engajamento duplica. O Chega capitaliza esta mecânica com mensagens que cabem em 8–12 segundos e com “provas” anedóticas fáceis de encaixar no feed. Democracia discute processos; o algoritmo pede espetáculo. Quem tem vantagem nesse tabuleiro?
A outra metade da equação é custo. Perfis falsos e contas coordenadas são baratos, difíceis de rastrear e descartáveis. Bloqueia-se um lote; surge outro. Ao mesmo tempo, patrocínios com micro-segmentação — por idade, local, interesse — entregam o mesmo frame com embalagens distintas. Falta transparência sobre valores investidos e redes de páginas “não-oficiais” que funcionam como satélites de campanha. Enquanto as regras permitirem zonas cinzentas, a vantagem ficará do lado de quem aceita jogar nelas.
Caso de estudo: restrição do Facebook e efeito boomerang
A restrição imposta pela Meta ao Chega em 2024 teve um efeito paradoxal. No curto prazo, impediu a página principal de criar conteúdo, mas gerou um discurso de vitimização que impulsionou a mobilização noutros canais — Instagram, TikTok e páginas do grupo parlamentar. A máquina adaptou-se, driblou a limitação e converteu o episódio num meme político. O episódio confirma a elasticidade do ecossistema e a dependência das redações de decisões opacas das plataformas.
A médio prazo, o caso colocou uma questão maior: quem arbitra o discurso político online e com que critérios? Sem auditoria externa e devido processo explícito, o terreno fica fértil para a retórica do “banimento ideológico”, ao mesmo tempo que vítimas de discurso de ódio continuam sem proteção efetiva. Mais transparência, mais apelo, mais dados públicos — três mínimos para civilizar a arena.
Como travar o ciclo: cinco medidas concretas e verificáveis
Transparência total em bibliotecas de anúncios com segmentação, gasto por criativo e ligações entre páginas. Auditorias trimestrais independentes com amostras públicas em português europeu.
Deteção ativa de perfis falsos e redes inautênticas, com relatórios periódicos e métricas comparáveis — contas removidas, reincidência, tempo de resposta.
Parcerias reforçadas com verificadores e academias nacionais, garantindo acesso a dados de alcance e despromoção após classificação de falsidade.
Literacia digital continuada em escolas e media: reconhecer padrões de manipulação digital, distinguir “sinal” de “ruído”, resistir ao isco emocional.
Registo público de redes políticas no Telegram, Instagram e X usadas na redistribuição de conteúdos, com identificação de administradores e origem de financiamento.
O leitor como última linha: método rápido para não ser isco 📱
Pense em três passos antes de partilhar: origem (quem publica e porquê), prova (série temporal, não caso isolado), proporcionalidade (o remédio proposto condiz com os dados?). Desconfie de picos de comentários sem lastro de seguidores, de contas recém-criadas com atividade frenética e de “notícias” sem autoria. Procure o contraditório e, se possível, reporte. A democracia precisa de travões cognitivos tanto quanto de leis.
O Chega domina redes sociais porque fala a linguagem do algoritmo: curto, emocional, repetitivo. E porque testou, com sucesso, alavancas de manipulação digital — da estética ao calendário — num ambiente com transparência insuficiente e fiscalização irregular. Entre perfis falsos, campanhas sombra e clipes virais, a política converte-se em teatro de atenção. Não é inevitável. Mas é preciso nomear o método, expor a mecânica e exigir contas — às plataformas, aos partidos e a nós próprios. A pergunta que fica é simples: queremos feeds que informam ou feeds que inflamam?