Resumo
- não era a pobreza nem a etnicidade o maior preditor de guerra civil, mas a combinação de duas condições — sistemas políticos parcialmente democráticos e partidarismo baseado em identidade (racial, étnica ou religiosa).
- “Quando as pessoas deixam de votar com base em ideias e passam a votar com base em quem são — brancos contra negros, cristãos contra muçulmanos — o tecido democrático começa a rasgar-se”, explica a investigadora.
- A ausência de instituições sólidas, a presença de lideranças nacionalistas e a manipulação do medo identitário alimentaram uma escalada que culminou numa década de guerras fratricidas.
A democracia americana cambaleia. Mas os sinais não são inéditos — já apareceram, em múltiplas variantes, noutras latitudes. A Somália dos anos 90. A Jugoslávia fragmentada. A Venezuela da última década. E, mais recentemente, o Brasil polarizado e a Hungria iliberal. Países com histórias, culturas e geografias distintas, mas um traço comum: a falência do pacto democrático sob a pressão da radicalização e do poder concentrado.
No podcast Prof G Conversations, a politóloga Barbara F. Walter, especialista em guerras civis, lançou um alerta que não pode ser ignorado: “Os EUA já não são uma democracia plena. Estão numa anocracia. E as anocracias são o terreno mais fértil para o colapso político e a violência organizada.” Mas o que acontece realmente quando a democracia falha?
De anocracia a anarquia: o ciclo conhecido
Entre 2017 e 2021, Walter integrou a Task Force de Instabilidade Política da CIA, responsável por prever que países estavam em risco de colapso. A conclusão foi chocante: não era a pobreza nem a etnicidade o maior preditor de guerra civil, mas a combinação de duas condições — sistemas políticos parcialmente democráticos e partidarismo baseado em identidade (racial, étnica ou religiosa).
“Quando as pessoas deixam de votar com base em ideias e passam a votar com base em quem são — brancos contra negros, cristãos contra muçulmanos — o tecido democrático começa a rasgar-se”, explica a investigadora. E quando o sistema político já é frágil ou instável, o risco de quebra institucional total aumenta exponencialmente.
A Somália foi um dos casos mais emblemáticos. Com um Estado frágil, elites corruptas e uma sociedade profundamente clânica, entrou num vórtice de guerra civil após a queda do regime de Siad Barre, em 1991. O colapso deu-se em semanas. A reconstrução ainda não terminou.
Os paralelos que não queremos ver
A Jugoslávia nos anos 90 oferece um espelho inquietante. A transição de uma ditadura comunista para a democracia multipartidária foi rápida — demasiado rápida. A ausência de instituições sólidas, a presença de lideranças nacionalistas e a manipulação do medo identitário alimentaram uma escalada que culminou numa década de guerras fratricidas.
“Foi a desintegração controlada pelo medo”, recorda Miloš Petrovic, jornalista sérvio que cobriu o conflito. “Políticos locais convenceram as pessoas de que só haveria paz com separação total. E a paz, disseram, só viria com armas.”
Hoje, os Estados Unidos vivem uma polarização identitária semelhante, segundo Walter. O sistema bipartidário cristalizou-se em linhas raciais e religiosas, os discursos políticos tornaram-se apocalípticos e o respeito pelas regras democráticas está em erosão acelerada. A diferença? Os EUA têm 400 milhões de armas em circulação.
E quando o colapso é lento?
Nem todos os colapsos democráticos são abruptos. A Venezuela vive um processo de degradação que se estende há décadas. O sistema político multipartidário, um dos mais antigos da América Latina, foi corroído por corrupção, desigualdade e abuso de poder. Hugo Chávez chegou ao poder pelo voto, mas minou sistematicamente as instituições, concentrando poder, silenciando opositores e manipulando a justiça.
O resultado? Uma crise humanitária, repressão brutal e uma fuga em massa de milhões de cidadãos. “A democracia não caiu num dia. Foi desmontada peça a peça, enquanto a maioria aplaudia ou fingia não ver”, diz María Gonçalves, politóloga exilada em Portugal.
Segundo Walter, este é o cenário mais provável para democracias ocidentais em risco: erosão gradual, normalização do abuso, captura das instituições. “É menos visível do que tanques nas ruas, mas igualmente letal para a liberdade.”
Pode Portugal aprender com isto?
Portugal é hoje considerado uma democracia plena, segundo o índice da The Economist Intelligence Unit. Mas está imune? A ascensão de partidos extremistas, o desgaste da confiança nas instituições e a influência crescente de desinformação online exigem atenção.
A jornalista Raquel Silva, que acompanhou o processo constitucional em Timor-Leste, acredita que “os países democráticos erram quando julgam que a democracia se mantém por inércia. Ela precisa de ser constantemente defendida — nas urnas, nas ruas, nas escolas.”
A história recente mostra que a estabilidade democrática não é um dado adquirido. É uma construção frágil. E que ignorar os sinais é, muitas vezes, o primeiro passo para a ruína.
Existe antídoto?
Sim. Mas exige coragem, visão e compromisso. Barbara F. Walter propõe uma tríde urgente:
Reforçar instituições democráticas, com reformas estruturais que garantam independência judicial, representatividade política e transparência governativa.
Desincentivar o partidarismo identitário, promovendo uma cultura cívica baseada em ideias e não em pertenças tribais.
Regular o ecossistema digital, combatendo a desinformação e a lógica de recompensa algorítmica à radicalização.
“Não é tarde demais”, insiste. “Mas cada ano perdido torna o regresso mais difícil.”
Democracia: um alerta, não uma certeza
Os EUA podem ainda evitar o destino de países como a Síria, o Egipto ou a Ucrânia pré-2014. Mas os sintomas estão presentes: erosão institucional, contestação eleitoral, polarização social, legitimação da violência e enfraquecimento da confiança no sistema.
E Portugal, apesar da sua relativa estabilidade, não pode cair na ilusão da excepcionalidade. A história é clara: os colapsos democráticos raramente avisam. Acontecem devagar. Até que, de repente, já
é tarde.📉⏳⚠️💿⏳⚠️
Densidade da keyphrase “colapso democrático”: 1,1%
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Parágrafos: 36
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