Resumo
- A Gaza Humanitarian Foundation, criada após o colapso do sistema humanitário da ONU, é financiada por Israel e Estados Unidos e atua com o apoio de forças de segurança privadas armadas, que têm ordens para manter a “ordem” a todo o custo.
- Ao contrário do sistema anterior — que contava com mais de 400 centros de distribuição sob coordenação da ONU — a GHF opera apenas quatro pontos principais, sempre localizados em zonas de difícil acesso, longe das áreas residenciais, forçando milhares de civis a deslocações perigosas e humilhantes.
- A organização internacional exige a suspensão imediata do actual modelo de distribuição militarizada e a reposição de um sistema de ajuda civil, coordenado por entidades neutras e com acesso irrestrito às zonas afectadas.
A fome na Faixa de Gaza não é apenas uma consequência da guerra — é, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma arma de guerra em si mesma. No mais recente relatório divulgado esta semana, a MSF denuncia que civis palestinianos são feridos ou mortos em massa nos postos militarizados de distribuição de alimentos operados pela controversa Gaza Humanitarian Foundation (GHF).
Entre 1 de junho e 20 de julho, dois centros médicos da MSF em Rafah trataram 1.380 pessoas feridas ao tentar aceder a comida nesses pontos. Os relatos médicos recolhidos revelam uma escalada chocante da violência: civis são alvejados com balas reais, agredidos, pisoteados e até mordidos por cães de segurança enquanto aguardam em filas caóticas, sob calor extremo e em condições de desidratação severa.
“São corpos esgotados e feridos que nos chegam todos os dias. Alguns não conseguem nem falar”, afirmou um médico da MSF, sob anonimato por razões de segurança.
Civis desarmados, vítimas da “ordem”
A Gaza Humanitarian Foundation, criada após o colapso do sistema humanitário da ONU, é financiada por Israel e Estados Unidos e atua com o apoio de forças de segurança privadas armadas, que têm ordens para manter a “ordem” a todo o custo. O resultado, segundo os profissionais no terreno, é uma lógica de extermínio selectivo sob a capa de “ajuda humanitária”.
Num dos episódios mais chocantes descritos no relatório, uma criança de 12 anos foi alvejada na perna por tentar atravessar a cerca de arame de um ponto de distribuição, após esperar quatro horas sem sucesso. Noutra ocasião, um homem de 40 anos foi baleado por carregar pão num saco de plástico, confundido com arma.
A MSF afirma que esta estratégia visa deliberadamente reduzir o acesso à ajuda a um número mínimo de pessoas, criando o que classificam como uma “hierarquia de merecimento” entre civis famintos.
Infraestruturas insuficientes, resposta brutal
Ao contrário do sistema anterior — que contava com mais de 400 centros de distribuição sob coordenação da ONU — a GHF opera apenas quatro pontos principais, sempre localizados em zonas de difícil acesso, longe das áreas residenciais, forçando milhares de civis a deslocações perigosas e humilhantes.
As vítimas relatam ser sujeitas a revistas corporais, interrogatórios e, em muitos casos, a violência gratuita. Um dos pacientes internados na unidade de trauma da MSF descreveu o processo como “uma lotaria de vida ou morte, onde quem perde não passa fome — morre”.
A MSF documenta também casos de amputações, ferimentos permanentes e traumas psicológicos profundos entre as vítimas. “Esta situação ultrapassa os limites do aceitável até em tempos de guerra. Trata-se de uma forma de punição colectiva absolutamente intolerável”, afirmou a coordenadora de emergência da organização.
Ajuda que não alimenta, apenas controla
A comida distribuída nos postos GHF — pacotes secos de bolachas, arroz e farinha — é insuficiente para garantir a subsistência e, muitas vezes, impossível de preparar nas condições em que vivem os deslocados internos. Sem água potável, combustível ou acesso a fogões, as famílias acabam por receber alimentos que não podem consumir.
“As pessoas saem dos postos de ajuda com menos do que tinham antes: feridas, traumatizadas, e com um punhado de calorias inúteis nas mãos”, lamentou uma enfermeira da MSF.
A organização internacional exige a suspensão imediata do actual modelo de distribuição militarizada e a reposição de um sistema de ajuda civil, coordenado por entidades neutras e com acesso irrestrito às zonas afectadas.