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Resumo

  • a guerra voltou a ser centro da estratégia, e o uso da força, uma virtude.
  • O treino militar, os sistemas de armamento e os programas de inteligência passam a ser avaliados pelo seu potencial destrutivo — e não pela sua capacidade de prevenção de conflitos.
  • Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os EUA representam agora 39% da despesa militar global — quase o triplo da China e sete vezes mais do que a Rússia.

Há uma nova palavra de ordem nos corredores do Pentágono: letalidade. A palavra surge repetidamente em discursos, documentos estratégicos e entrevistas de altos responsáveis militares nomeados por Donald Trump. Pete Hegseth, Secretário da agora designada Department of War, tem sido o rosto visível desta doutrina. “Letalidade máxima, não legalidade tímida”, afirmou, numa conferência recente em West Point. A frase resume o espírito da mudança: a guerra voltou a ser centro da estratégia, e o uso da força, uma virtude.

Mas o que significa, na prática, uma política externa centrada na letalidade? Estará a América realmente a preparar-se para uma nova era de confrontos?


Da dissuasão à ofensa: a mudança doutrinária

Durante décadas, a doutrina militar americana baseou-se num delicado equilíbrio entre dissuasão e contenção. A guerra era sempre a última opção, justificada por ameaças existenciais ou por tratados multilaterais. A lógica era clara: mostrar força para evitar usá-la.

Agora, a retórica mudou. Documentos estratégicos recentemente divulgados pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) apontam para uma inversão dessa lógica. A nova National Defense Strategy destaca, no seu parágrafo introdutório, que “a prontidão ofensiva é a melhor forma de garantir a paz”. É o regresso ao velho adágio romano: si vis pacem, para bellum — se queres a paz, prepara-te para a guerra. Mas com uma nuance: esta preparação já não é defensiva, é proactiva.

Ao elevar a “letalidade” a valor central, o Pentágono reformula os seus critérios operacionais. O treino militar, os sistemas de armamento e os programas de inteligência passam a ser avaliados pelo seu potencial destrutivo — e não pela sua capacidade de prevenção de conflitos. É uma mudança perigosa.


Indicadores preocupantes: onde está a política?

Os números falam por si. Entre 2017 e 2025, o orçamento do Departamento de Defesa aumentou de 611 mil milhões de dólares para 886 mil milhões. Mais de metade desse valor destina-se agora a tecnologias letais de projecção de poder: mísseis hipersónicos, drones autónomos, modernização do arsenal nuclear, inteligência artificial para combate tático.

Em contrapartida, os investimentos em diplomacia de defesa, programas de prevenção de radicalização, ajuda militar não-letal e cooperação humanitária diminuíram mais de 30%. O equilíbrio entre força bruta e soft power está a colapsar.

Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os EUA representam agora 39% da despesa militar global — quase o triplo da China e sete vezes mais do que a Rússia. Mas essa supremacia não traduz estabilidade. Pelo contrário: os conflitos activos aumentaram, a proliferação armamentista acelera e as alianças estão mais frágeis.


A ética da letalidade: podemos aceitá-la?

Há quem argumente que esta nova doutrina é apenas realismo estratégico. Que num mundo de ameaças imprevisíveis — terrorismo, ciberataques, rivalidade com potências nucleares — a dissuasão clássica já não funciona. E que só uma força esmagadora pode garantir a paz.

Mas esta visão ignora o custo moral da escolha. Letalidade como política de Estado significa normalizar a violência como resposta primária. Significa aceitar que causar morte — de forma rápida e eficaz — é o objectivo principal do aparelho militar. E significa, sobretudo, esquecer que a guerra tem sempre consequências imprevisíveis, para quem ataca e para quem defende.

O direito internacional, desde a Carta das Nações Unidas, estabelece limites claros ao uso da força. A doutrina da letalidade rompe com esses limites ao assumir que o poder deve ser demonstrado, mesmo sem ameaça iminente. Transforma o jus ad bellum (direito de ir à guerra) num dever de guerrear. É um retrocesso civilizacional.


E o mundo? Reage ou adapta-se?

A adopção da letalidade como doutrina está a provocar respostas em cadeia. A China reforçou o seu orçamento de defesa em 7,2% este ano, destacando o “carácter ofensivo” da nova postura americana. A Rússia, apesar da guerra prolongada na Ucrânia, não interrompeu o seu programa de mísseis de longo alcance. A Índia anunciou recentemente que irá desenvolver um sistema de drones armados com IA — citando como justificação “a doutrina americana de uso antecipado de força letal”.

Ou seja, ao tentar intimidar, os EUA podem estar a desencadear uma nova corrida armamentista. Um jogo perigoso, onde todos perdem. Sobretudo os civis.


Letalidade é força, ou fragilidade disfarçada?

A insistência na letalidade pode ser, paradoxalmente, sinal de insegurança. Um país seguro, respeitado e confiante nas suas instituições não precisa de anunciar ao mundo que é capaz de matar rapidamente. Precisa, sim, de mostrar que sabe evitar mortes.

A pergunta que se impõe é simples: que tipo de poder querem os EUA exercer no mundo? O da força crua, que impõe? Ou o da legitimidade, que convence?

Letalidade pode vencer batalhas. Mas só a diplomacia vence guerras duradouras.

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