Partilha

Resumo

  • a Guerra dos Seis Dias (1967), em que Israel ocupou Gaza, Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental), Sinai e Golã, trouxe à mesa a linguagem de “territórios ocupados”, resoluções do Conselho de Segurança e um impasse territorial que perdura.
  • Gaza sob o Hamas, Cisjordânia sob a Autoridade Palestiniana — com bloqueio israelita (e restrições egípcias) a condicionar a vida diária de dois milhões de pessoas.
  • No plano jurídico, o Tribunal Internacional de Justiça afirmou, em 19 de julho de 2024, que a presença de Israel nos Territórios Palestinianos Ocupados é ilícita e geradora de deveres para terceiros Estados.

Um século? Mais: raízes e partilha

A pergunta é direta: existe, de facto, uma “guerra com 100 anos” entre Israel e Palestina? A cronologia ajusta o foco. As raízes modernas cristalizam no Mandato Britânico (1920–1948) e na proposta de partilha da ONU (Resolução 181, 1947), que previa dois Estados e um regime internacional para Jerusalém. A liderança sionista aceitou o plano; os Estados árabes e dirigentes árabes palestinianos rejeitaram-no. Seguiu-se a guerra de 1948, o êxodo palestiniano (Nakba) e o nascimento de Israel. As linhas romperam-se aqui. (Avalon Project, Encyclopedia Britannica)

A etapa seguinte reconfigura todo o mapa: a Guerra dos Seis Dias (1967), em que Israel ocupou Gaza, Cisjordânia (incluindo Jerusalém Oriental), Sinai e Golã, trouxe à mesa a linguagem de “territórios ocupados”, resoluções do Conselho de Segurança e um impasse territorial que perdura. Foi uma vitória relâmpago, com efeitos duradouros. E com custos políticos que só cresceram. (Encyclopedia Britannica)

Conclusão provisória: não é uma guerra única e linear com “100 anos”, mas um conflito prolongado em ciclos — alimentado por eventos-âncora (1947–48; 1967) que condicionam tudo o que veio depois. Parece semântico; é decisivo.

Intifadas, Oslo e o regresso do possível

Nos anos 90, a diplomacia tentou quebrar a inércia com os Acordos de Oslo (1993–1995). Israel reconheceu a OLP como representante dos palestinianos; a OLP reconheceu Israel e renunciou à luta armada; nasceu a Autoridade Palestiniana como arranjo interino. Questões finais — fronteiras, colonatos, refugiados, Jerusalém — ficaram por resolver. Ficaram, e aqui ainda estão. Quando a negociação parou, regressaram a frustração e a violência. Nada mais perigoso do que promessas sem calendário. (História do Estado, Nações Unidas)

A Primeira Intifada (1987–1993) empurrou Israel e a OLP para Oslo; a Segunda Intifada (2000–2005) fechou as portas. Da esperança à barricada, em pouco tempo. O rasto foi pesado, com atentados, operações militares e uma erosão profunda da confiança pública. Israel e Palestina voltaram à gramática do medo.

Gaza, desengajamento e rutura interna palestiniana

Em 2005, Israel retirou colonatos e guarnições permanentes de Gaza. Um ano depois, o Hamas venceu legislativas; em 2007, após combates com a Fatah, tomou o controlo do enclave. Nasceu a dupla fragmentação: Gaza sob o Hamas, Cisjordânia sob a Autoridade Palestiniana — com bloqueio israelita (e restrições egípcias) a condicionar a vida diária de dois milhões de pessoas. Uma divisão política que se tornou estrutura. E que dificulta qualquer saída. (PBS, Wikipedia)

Daí em diante, Gaza atravessou rondas de guerra em 2008–09, 2012 e 2014, além de escaladas em 2021–2022. Cada ciclo devastou infraestruturas, empregos e saúde pública; cada cessar-fogo adiou decisões políticas. Quando a política falha, o túnel substitui a ponte. E o preço paga-se em vidas. (OCHA – Território Palestiniano Ocupado, Brookings)

7 de outubro de 2023: rutura total e uma guerra sem travões

A 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque coordenado por terra, ar e mar contra Israel, matando mais de 1.200 pessoas e raptando mais de 240. Israel respondeu com uma campanha aérea e terrestre de grande escala em Gaza. Desde então, as operações, cercos e deslocações atingiram níveis sem precedentes, com dezenas de milhares de mortos e colapso de serviços essenciais. A guerra avançou por fases, com tréguas breves e regressos ao combate. Israel e Palestina, mais longe da política, mais perto do abismo. (Encyclopedia Britannica, The Washington Post)

No plano jurídico, o Tribunal Internacional de Justiça afirmou, em 19 de julho de 2024, que a presença de Israel nos Territórios Palestinianos Ocupados é ilícita e geradora de deveres para terceiros Estados. O parecer não encerra o conflito, mas clarifica uma matriz legal: ocupação não confere soberania; segurança não suspende o direito humanitário. Direito e guerra colidem aqui, todos os dias. (icj-cij.org)

Linha do tempo essencial — para não nos perdermos

1917–1948 — Mandato Britânico; promessas contraditórias; imigração judaica cresce, sobretudo nos anos 30; violência intercomunitária aumenta.
1947–48Partilha da ONU; guerra; Israel declara independência; êxodo palestiniano; armistícios sem paz. (Avalon Project, Encyclopedia Britannica)
1967 — Israel ocupa Gaza, Cisjordânia (incl. Jerusalém Oriental), Sinai e Golã; Res. 242 pede retirada em troca de paz. (Encyclopedia Britannica)
1979 — Tratado de paz Egito–Israel, devolução do Sinai; o dossiê palestiniano fica por resolver.
1987–93Primeira Intifada; viragem para Oslo.
1993–1995Oslo cria Autoridade Palestiniana e um processo faseado; estatuto final adiado. (História do Estado)
2000–2005Segunda Intifada; barreiras, atentados e operações; esvazia-se o processo político.
2005–2007 — Desengajamento de Gaza; vitória do Hamas; tomada de Gaza (2007); bloqueio. (PBS)
2008–2014 — Guerras repetidas em Gaza, com pausas frágeis. (OCHA – Território Palestiniano Ocupado)
2012 — A Palestina torna-se Estado observador não-membro na ONU. (docs.un.org)
2023–2025 — Ataque de 7/10; guerra prolongada em Gaza; novas decisões e sanções; reconhecimento internacional da Palestina cresce, sem fechar a ferida. (Reuters)

Linha reta? Nunca. A cronologia dobra-se em espirais.

“Israel e Palestina” hoje: o que sustenta o impasse

Três pilares mantêm a crise: território, segurança e direitos. Em território, colonatos e anexações de facto na Cisjordânia corroem a geografia de um Estado palestiniano viável. Em segurança, Israel exige garantias absolutas contra rockets, túneis e ataques; Gaza tornou-se argumento e ferida. Em direitos, o desequilíbrio de mobilidade, propriedade e justiça alimenta desespero social e radicalização. Cada pilar trava os outros. Como sair deste triângulo?

Há ainda a fractura intra-palestiniana entre Hamas e Autoridade Palestiniana, que impede uma voz única e uma cadeia de comando credível para qualquer acordo. Sem reconciliação efetiva — e sem reforma política —, o “dia seguinte” morre no papel. Reconstituir autoridade legítima não é detalhe técnico; é condição de paz.

É mesmo “uma guerra com 100 anos”?

Depende do que medimos. Se medirmos hostilidade política e violência organizadas desde o mandato britânico, a equação aproxima-se do século. Se pedirmos uma guerra ininterrupta, a resposta é não: existem fases com negociações, tréguas e cooperação limitada. Mais rigoroso será falar de um conflito centenário, que inclui várias guerras, ocupações e intifadas, atravessado por momentos de diplomacia séria e por outras tantas oportunidades falhadas. Sem verdade, sem saída.

Pergunta incômoda: queremos um slogan histórico — ou um plano exequível?

O que o direito e a diplomacia ainda dizem

Do ponto de vista jurídico, a matriz que prevalece inclui: o princípio de autodeterminação do povo palestiniano; a proibição de aquisição de território pela força; e a aplicação do direito de ocupação enquanto perdurar o controlo efetivo israelita sobre territórios tomados em 1967. Em 2012, a ONU consolidou o estatuto de Estado observador da Palestina; em 2024, o TIJ declarou a presença israelita nos TPO ilícita e com consequências para terceiros. São marcos legais que enquadram, não resolvem. (docs.un.org, icj-cij.org)

Diplomaticamente, o consenso retórico aponta ao dois Estados. Mas consenso sem incentivos e garantias é miragem. Sem uma arquitetura que combine segurança para Israel, liberdade e soberania efetiva para a Palestina e mecanismos internacionais de verificação, a frase “processo de paz” continuará a ser sinónimo de espera. Cínico? Realista.

Cinco ideias-chave para ler “Israel e Palestina” sem ruído

  1. Não há “ponto zero”. 1947–48 e 1967 são marcos fundacionais; o conflito é mais longo e composto. (Avalon Project, Encyclopedia Britannica)
  2. Oslo abriu uma janela; a Segunda Intifada fechou-a. Hoje, a reconstrução de uma via política exige novas garantias e novas lideranças. (História do Estado)
  3. Gaza é peça do todo. Desengajamento (2005), rutura (2007) e guerras cíclicas criaram um laboratório de impasses. (PBS, OCHA – Território Palestiniano Ocupado)
  4. O direito fixa limites. O parecer do TIJ (2024) reforça que ocupação é ilícita e não cria títulos. (icj-cij.org)
  5. 2023 mudou tudo outra vez. O ataque de 7/10 e a guerra subsequente elevaram vítimas e polarização a níveis inéditos. (Encyclopedia Britannica)

Veredito: slogan útil, precisão melhor

Chamar-lhe “guerra com 100 anos” ajuda o público a captar a longevidade do impasse. Engana, porém, se sugerir uma guerra única, homogénea e fatalista. O que existe é um conflito centenário, feito de guerras, ocupações e negociações, com marcos claros e responsabilidades múltiplas e assimétricas. Para o encerrar, não bastam datas ou mapas; exigem-se garantias, responsabilidade jurídica e mudanças institucionais. Sem isso, “Israel e Palestina” seguirá a rimar com luto — e com adiamento.

Pergunta final: se não agora, quando?

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