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Resumo

  • Após quase dois anos de ofensiva militar israelita, Gaza não é apenas um território sob cerco — é uma ferida aberta que exigirá décadas de reconstrução e dezenas de milhares de milhões de dólares.
  • Segundo estimativas recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a reconstrução total de Gaza poderá ultrapassar os 50 mil milhões de dólares, caso se pretenda restabelecer níveis mínimos de infraestrutura habitacional, saúde, educação, energia e abastecimento de água.
  • Reconstrução sob tutela internacional – com uma missão da ONU ou uma coligação de Estados a gerir os fundos e o planeamento urbanístico, garantindo neutralidade e transparência.

Mais de 37 mil mortos, bairros inteiros arrasados, hospitais, escolas, centrais elétricas e redes de água reduzidas a pó. Após quase dois anos de ofensiva militar israelita, Gaza não é apenas um território sob cerco — é uma ferida aberta que exigirá décadas de reconstrução e dezenas de milhares de milhões de dólares.

A pergunta que já inquieta diplomatas, economistas e organizações internacionais é clara: quem vai pagar a reconstrução de Gaza? E como reconstruir uma terra ainda cercada, onde os escombros continuam a cair?

O custo da guerra: números que desafiam a imaginação

Segundo estimativas recentes do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a reconstrução total de Gaza poderá ultrapassar os 50 mil milhões de dólares, caso se pretenda restabelecer níveis mínimos de infraestrutura habitacional, saúde, educação, energia e abastecimento de água.

Em termos comparativos, trata-se de um esforço superior ao Plano Marshall por habitante, e sem as garantias de estabilidade política ou segurança que existiam na Europa do pós-guerra.

Só a reposição da rede elétrica — incluindo centrais, postes, transformadores e linhas de transmissão — exigirá mais de 2,5 mil milhões de dólares, segundo o Banco Mundial. Já o setor da habitação requer cerca de 15 mil milhões, considerando que mais de 60% dos edifícios residenciais foram total ou parcialmente destruídos.

Doadores relutantes, contexto volátil

A comunidade internacional manifestou prontidão para apoiar Gaza — mas as promessas esbarram na ausência de garantias políticas, na desconfiança entre facções palestinianas e no cerco contínuo imposto por Israel.

A conferência de doadores organizada em Roma, em abril de 2025, angariou cerca de 9 mil milhões de dólares em compromissos voluntários, vindos sobretudo da UE, Qatar, Noruega, Kuwait e Turquia. Contudo, menos de 20% desse valor foi efetivamente desembolsado até agosto, devido a bloqueios logísticos, condicionamentos políticos e falta de acesso humanitário.

“O mundo não quer financiar um buraco negro onde tudo pode ser destruído de novo no próximo ataque”, afirma um diplomata europeu sob anonimato.

Quem paga — e quem tem obrigação legal de pagar?

Segundo o direito internacional humanitário, a potência ocupante — neste caso, Israel — é responsável pelos danos causados a infraestruturas civis em contextos que violem os princípios da proporcionalidade e da distinção.

Juristas como Michael Lynk, ex-relator da ONU para os Territórios Palestinianos, defendem que Israel deverá ser responsabilizado financeiramente por parte substancial da reconstrução, caso o Tribunal Penal Internacional confirme a prática de crimes de guerra.

Contudo, o cenário político torna improvável qualquer indemnização voluntária. Isso significa que, na prática, caberá aos contribuintes europeus, árabes e asiáticos financiar os escombros que não causaram.

Modelos de reconstrução: que Gaza é possível?

A discussão sobre “como” reconstruir Gaza é tão importante quanto o “quanto”. Há três cenários possíveis em debate entre agências internacionais e analistas:

  1. Reconstrução sob tutela internacional – com uma missão da ONU ou uma coligação de Estados a gerir os fundos e o planeamento urbanístico, garantindo neutralidade e transparência.
  2. Reconstrução liderada pela Autoridade Palestiniana (AP) – o cenário preferido por vários governos ocidentais, mas com obstáculos internos: a AP tem legitimidade questionada e controlo limitado sobre Gaza.
  3. Modelo descentralizado com ONGs e conselhos locais – eficaz no curto prazo, mas fragmentado, vulnerável a corrupção e com risco de sobreposição de esforços.

Em qualquer dos casos, sem cessar-fogo permanente, fim do bloqueio e acordo político mínimo, qualquer reconstrução será frágil e exposta a nova destruição.

Reconstruir sem justiça é reconstruir ruínas

Reerguer Gaza não é apenas um desafio técnico ou financeiro. É uma exigência ética de reparação, dignidade e futuro para um povo ferido até ao osso.

Mas há um dilema: como reconstruir num território onde a destruição é cíclica e onde as estruturas da ocupação continuam ativas?

Sem garantias legais, sem responsabilização dos agressores, sem um horizonte político claro, a reconstrução corre o risco de ser apenas o prelúdio da próxima tragédia.

Porque reconstruir Gaza não é só levantar paredes. É restaurar direitos, romper cercos e dar forma a uma esperança que resista ao fogo.

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