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Resumo

  • Desde o início da ofensiva israelita, surgem provas crescentes de que jornalistas palestinianos estão a ser rastreados, identificados e mortos com recurso a tecnologias avançadas de vigilância, incluindo drones armados, escutas electrónicas e reconhecimento facial.
  • Um documento obtido pela ONG israelita Hamoked, e divulgado pelo Haaretz, sugere a existência de listas não oficiais com nomes de jornalistas identificados como “pró-Hamas” ou “propagandistas hostis” — frequentemente baseadas apenas em posts nas redes sociais.
  • Tecnologias de reconhecimento facial, como as usadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, estão a ser cada vez mais integradas nos sistemas de drones e torres de vigilância automatizadas ao longo da fronteira com Gaza.

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Um colete azul com a palavra “PRESS” já não protege. Em Gaza, esse colete é cada vez mais um alvo. Desde o início da ofensiva israelita, surgem provas crescentes de que jornalistas palestinianos estão a ser rastreados, identificados e mortos com recurso a tecnologias avançadas de vigilância, incluindo drones armados, escutas electrónicas e reconhecimento facial.

Esta investigação revela como mecanismos militares sofisticados — desenhados para “eliminar ameaças” — estão a ser utilizados contra profissionais de imprensa. O objetivo? Silenciar a documentação da guerra. Apagar as testemunhas. Controlar a narrativa.

Drones: o assassino invisível

A maioria dos jornalistas mortos em Gaza foi atingida por mísseis lançados por drones de alta precisão. De acordo com investigações da Forensic Architecture, RSF e B’Tselem, há um padrão inequívoco: ataques cirúrgicos contra locais onde se sabia estarem jornalistas — muitas vezes sozinhos ou em pequenos grupos.

Em pelo menos 12 casos analisados entre Novembro de 2023 e Julho de 2024:

Os jornalistas usavam coletes e capacetes identificativos.

Tinham mudado de localização dias antes, por motivos de segurança.

Foram atingidos em zonas afastadas de qualquer confronto armado.

“É um padrão de execução, não de erro militar”, afirma Joe Dyke, analista da Airwars. “As câmaras de drones israelitas têm capacidade de zoom, infravermelhos e inteligência artificial. Eles sabiam quem estavam a matar.”

Vigilância digital: o telemóvel como isco

Além do rastreamento visual, as autoridades israelitas têm uma longa história de vigilância electrónica em Gaza. Desde 2014, sistemas de interceptação de chamadas, localização por GSM e monitorização de tráfego de dados são utilizados para recolher informação em tempo real.

Jornalistas palestinianos contactados para esta reportagem confirmaram:

Chamadas misteriosas antes de ataques.

Desligamentos repentinos de rede após envio de vídeos.

Geolocalização de telefones que coincidem com locais de bombardeamentos.

Um repórter da Al Jazeera, que pediu anonimato, disse ter mudado de cartão SIM sete vezes em dois meses. “Publicar uma reportagem pode significar ser seguido por um drone nos minutos seguintes.”

Listas negras: quem são os jornalistas “marcados”?

Um documento obtido pela ONG israelita Hamoked, e divulgado pelo Haaretz, sugere a existência de listas não oficiais com nomes de jornalistas identificados como “pró-Hamas” ou “propagandistas hostis” — frequentemente baseadas apenas em posts nas redes sociais.

Fontes do exército israelita, citadas sob anonimato por um relatório do +972 Magazine, confirmam: há jornalistas que são considerados “alvos válidos” em operações militares, mesmo sem envolvimento directo com actividades armadas.

Entre os nomes figuravam:

Correspondentes da Al Aqsa TV (o canal foi classificado como “infraestrutura terrorista” por Israel).

Jornalistas freelancers que cobriam ataques a escolas ou hospitais.

Repórteres que publicaram vídeos de cadáveres civis com hashtags como #GazaUnderAttack.

Ser jornalista em Gaza tornou-se, para o exército israelita, equivalente a ser combatente. E essa equivalência é deliberadamente construída.

Reconhecimento facial: a nova arma no campo de batalha

Tecnologias de reconhecimento facial, como as usadas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, estão a ser cada vez mais integradas nos sistemas de drones e torres de vigilância automatizadas ao longo da fronteira com Gaza.

Uma investigação da rede americana Intercept revelou que Israel testou software de identificação automática em 2021, em zonas densamente povoadas.

Atualmente, acredita-se que:

Câmaras com IA recolhem rostos em multidões.

Algoritmos cruzam dados com perfis públicos de redes sociais.

Um “perfil de ameaça” pode ser gerado com base em palavras-chave, localização e relações.

Jornalistas com elevado alcance digital são os mais visados.

O objetivo final: matar a imagem

O jornalista não é um combatente. Mas em Gaza, a câmara é considerada arma. Mostrar um hospital destruído ou um bebê morto torna-se, aos olhos do ocupante, um acto de subversão. E o jornalista, um “agente hostil”.

“A lógica é clara: eliminar não apenas a pessoa, mas o que ela poderia vir a mostrar ao mundo”, explica Nadim Nashif, da 7amleh, ONG que estuda a vigilância digital israelita. “É censura com mísseis. Vigilância com fim letal.”

E a comunidade internacional?

Até agora, nenhuma organização das Nações Unidas abriu um inquérito específico sobre o uso de tecnologias de vigilância contra jornalistas em Gaza. O silênço alimenta a impunidade.

A ONU expressou “preocupação” geral.

A RSF apelou a investigações — mas sem mecanismos coercivos.

A UE, maior financiadora de tecnologia de vigilância israelita para controlo de fronteiras, mantém-se ambígua.

O que está em causa?

A verdade. Se se permite que Estados usem tecnologia militar para eliminar jornalistas, abre-se o precedente mais perigoso para o jornalismo global desde a era da censura totalitária.

Hoje é Gaza. Amanhã poderá ser qualquer outra zona de conflito.

📍 Investigação baseada em relatórios da Forensic Architecture, Airwars, Haaretz, Intercept, +972 Magazine, CPJ, e entrevistas com jornalistas locais sob anonimato. Todas as fontes cruzadas para verificação factual. Dados sensíveis foram anonimizados por questões de segurança.

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