Resumo
- deepfakes de líderes políticos, imagens de crianças supostamente resgatadas que afinal pertencem a conflitos anteriores, vídeos recortados que invertem a autoria de ataques.
- Organizações como o Poynter Institute e a Bellingcat criaram manuais de verificação, mas a escalada tecnológica torna o combate desigual.
- Se a guerra moderna se trava em duas frentes — no campo físico e no digital —, conseguirá a comunidade internacional regular o espaço virtual antes que a mentira se torne tão letal quanto a pólvora.
Numa era em que a guerra se trava também no ecrã, a desinformação tornou-se arma estratégica. Da Ucrânia a Gaza, vídeos falsos e manipulações digitais circulam com velocidade viral, confundem a opinião pública e, em muitos casos, condicionam decisões políticas. Afinal, como é que imagens fabricadas conseguem influenciar guerras reais?
O campo de batalha digital
No início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, multiplicaram-se vídeos manipulados — desde soldados inexistentes a discursos falsamente atribuídos a Volodymyr Zelensky. Em Gaza, o padrão repete-se: deepfakes de líderes políticos, imagens de crianças supostamente resgatadas que afinal pertencem a conflitos anteriores, vídeos recortados que invertem a autoria de ataques.
A lógica é simples: no calor da guerra, a velocidade da partilha supera a verificação. Plataformas como TikTok, Telegram e X tornaram-se canais centrais de propaganda e contra-propaganda. Num só clique, um boato adquire alcance global.
A indústria da dúvida
A desinformação não pretende apenas convencer; procura criar dúvida. Quando o público já não distingue factos de falsificações, a versão oficial mais conveniente ganha espaço. No caso da explosão no Hospital Al-Ahli, em outubro de 2023, tanto Israel como grupos palestinianos difundiram conteúdos manipulados, dificultando a compreensão pública do ocorrido.
O mesmo aconteceu na Ucrânia, quando vídeos de ataques em videojogos circularam como se fossem bombardeamentos reais. A repetição de falsos testemunhos mina a confiança nos media e abre caminho ao negacionismo.
Quem fabrica e quem lucra?
Laboratórios de propaganda estatais, grupos paramilitares e até influencers digitais participam na produção e difusão de falsos conteúdos. No caso russo, investigações da Bellingcat revelaram redes coordenadas de perfis falsos para inflar narrativas pró-Kremlin. Em Gaza, relatórios do Reuters Institute mostraram como bots automatizados amplificaram hashtags pró-Israel e pró-Palestina em simultâneo, demonstrando que o objetivo não é apenas informar, mas saturar.
Para plataformas digitais, a circulação massiva de conteúdos — mesmo falsos — gera tráfego, dados e lucro. As regras de moderação, frequentemente brandas, deixam espaço aberto para a manipulação.
As vítimas invisíveis
A manipulação digital tem impacto direto no terreno. Em Gaza, vídeos falsos foram usados para justificar ataques a zonas residenciais, alegando que eram centros militares. Na Ucrânia, deepfakes de soldados “a renderem-se” serviram para enfraquecer moral e semear pânico. No fim, as vítimas são duplas: civis que sofrem os ataques e sociedades que perdem acesso à verdade.
Como defender-se? Organizações como o Poynter Institute e a Bellingcat criaram manuais de verificação, mas a escalada tecnológica torna o combate desigual. A cada nova ferramenta de fact-checking, surge um novo software de manipulação.
Pergunta que fica
Se a guerra moderna se trava em duas frentes — no campo físico e no digital —, conseguirá a comunidade internacional regular o espaço virtual antes que a mentira se torne tão letal quanto a pólvora?