Resumo
- O fascismo de Benito Mussolini foi violento desde as origens, usou o terror contra adversários políticos, praticou colonialismo brutal em África e, a partir de 1938, adotou leis raciais que negaram direitos a milhares de cidadãos.
- Contudo, investigadores como George Mosse e a Fundação Primo Levi têm sublinhado que a violência colonial, a repressão interna e as leis raciais são suficientes para desmontar a narrativa de brandura.
- Ou é hora de reconhecer que, mesmo sem o genocídio sistemático nazi, o regime de Mussolini foi brutal, repressivo e racista.
A história popularizou a ideia de que o fascismo italiano teria sido uma versão “light” do nazismo alemão. Alguns manuais escolares ainda o descrevem como regime menos brutal, mais teatral e até tolerante quando comparado com o Terceiro Reich. Mas esta visão é um mito perigoso. O fascismo de Benito Mussolini foi violento desde as origens, usou o terror contra adversários políticos, praticou colonialismo brutal em África e, a partir de 1938, adotou leis raciais que negaram direitos a milhares de cidadãos.
A violência interna desde o início
Antes de conquistar o poder, Mussolini fundou em 1919 os Fasci di Combattimento, um movimento paramilitar de veteranos de guerra. As “camisas negras” usavam agressões, intimidação e assassinatos como tática para esmagar socialistas, sindicalistas e opositores. A Marcha sobre Roma em 1922 não foi apenas um desfile: foi a culminação de anos de violência organizada.
Durante os anos 20 e 30, o regime consolidou-se como ditadura de partido único. Houve censura, perseguições e prisões de opositores. O assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti, em 1924, simbolizou a face repressiva do regime. A ideia de um fascismo “menos sanguinário” ignora estes factos.
O colonialismo brutal na Etiópia
Se na Europa o fascismo foi acusado de ser “moderado” em comparação com Hitler, nas colónias africanas mostrou a sua crueldade sem disfarce. A invasão da Etiópia em 1935 foi marcada pelo uso de armas químicas proibidas, como gás mostarda, contra populações civis. A repressão deixou dezenas de milhares de mortos.
A ocupação não trouxe apenas violência militar. Foi também um laboratório de racismo imperial: populações locais foram submetidas a segregação, trabalhos forçados e execuções sumárias. O mito do fascismo brando não resiste quando se olham as práticas coloniais.
As leis raciais de 1938
Outro ponto que desmonta a ideia de moderação é a adoção de legislação antissemitas. Influenciado pela aliança com a Alemanha nazi, Mussolini promulgou em 1938 as Leis Raciais Italianas. Estas proibiram judeus de exercerem certas profissões, expulsaram-nos de escolas e universidades e restringiram os seus direitos civis.
Embora não tenham atingido a escala genocida do Holocausto, tiveram efeitos devastadores. Famílias inteiras perderam sustento, estudantes foram afastados do ensino e milhares acabaram deportados para campos de concentração após a ocupação alemã em 1943.
Estética e repressão: duas faces da mesma moeda
É verdade que o fascismo cultivou um estilo teatral: uniformes, desfiles, símbolos da Roma antiga. Essa estética espetacular fez parte da sua força mobilizadora. Mas reduzir o regime a cenografia ignora o seu carácter repressivo. Como observa Umberto Eco, a estética fascista era indissociável da violência que sustentava o regime.
O contraste com o nazismo não deve levar a relativizações. O facto de Mussolini ter mantido monarquia e Igreja como aliados não significa brandura, mas sim uma estratégia de poder diferente.
Por que o mito persiste?
A imagem do fascismo como “menos violento” ganhou força no pós-guerra, em parte porque a magnitude do Holocausto eclipsou outros crimes. Além disso, muitos italianos preferiram acreditar numa versão atenuada do seu passado, sobretudo durante a reconstrução nacional.
Contudo, investigadores como George Mosse e a Fundação Primo Levi têm sublinhado que a violência colonial, a repressão interna e as leis raciais são suficientes para desmontar a narrativa de brandura.
Um perigo contemporâneo
A minimização da violência fascista não é apenas um erro histórico. É também um risco político. Ao retratar Mussolini como líder autoritário mas “moderado”, abre-se espaço para novas formas de neofascismo se apresentarem como inofensivas.
Podemos continuar a acreditar que o fascismo foi “mais brando”? Ou é hora de reconhecer que, mesmo sem o genocídio sistemático nazi, o regime de Mussolini foi brutal, repressivo e racista?
👉 O mito da brandura de Mussolini é um equívoco que distorce a memória histórica. O fascismo italiano não foi “light”. Foi apenas diferente — mas nunca menos violento.