Resumo
- Ao transformar críticas, investigações e ataques mediáticos em combustível para a sua narrativa anti-sistema, o líder do Chega recorre a uma técnica conhecida em campanhas populistas.
- O líder que sofre ataques passa a simbolizar o próprio grupo, e qualquer crítica a ele é percebida como um ataque à comunidade que o apoia.
- Talvez a resposta esteja na própria natureza do populismo — um jogo onde a perceção conta mais do que a realidade, e onde a narrativa da vítima pode ser, paradoxalmente, a arma mais poderosa do vencedor.
Lisboa — “Estão contra mim porque estou do lado do povo.” Frases como esta, repetidas por André Ventura em comícios, entrevistas e redes sociais, são mais do que desabafos — são parte de uma estratégia política calculada. Ao transformar críticas, investigações e ataques mediáticos em combustível para a sua narrativa anti-sistema, o líder do Chega recorre a uma técnica conhecida em campanhas populistas: a vitimização como instrumento de mobilização.
Na prática, Ventura constrói um enredo no qual ele é o alvo de uma perseguição orquestrada por elites políticas, jornalistas e “forças ocultas” interessadas em travar a sua ascensão. Este mecanismo opera em duas frentes. Por um lado, reforça a ligação emocional com os apoiantes, que se veem como parte da mesma luta. Por outro, descredibiliza qualquer forma de escrutínio, apresentando-a como ataque pessoal ou tentativa de censura.
O manual do “eles contra nós”
A vitimização é uma velha conhecida do populismo global. Donald Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil e Viktor Orbán na Hungria usaram-na para consolidar bases eleitorais fiéis. Em todos os casos, o líder se apresenta como vítima de um “sistema corrupto” e, ao mesmo tempo, como herói resistente. Ventura segue essa lógica com adaptação ao contexto português, evocando tanto as elites políticas do “centrão” como a comunicação social “parcial” e o sistema judicial “politizado”.
Segundo a especialista em comunicação política Inês Ferreira, “a eficácia desta estratégia reside no apelo identitário. O líder que sofre ataques passa a simbolizar o próprio grupo, e qualquer crítica a ele é percebida como um ataque à comunidade que o apoia.” Esse fenómeno cria um efeito de blindagem: quanto mais criticado, mais legítimo Ventura parece aos olhos dos seus seguidores.
Do palco mediático à campanha permanente
O estilo confrontacional do líder do Chega encontra no espaço mediático terreno fértil. Programas de debate televisivo, entrevistas acaloradas e vídeos virais são usados como prova de que ele “não teme enfrentar o sistema”. Mesmo investigações jornalísticas que revelam contradições ou factos problemáticos acabam, paradoxalmente, por reforçar a narrativa de perseguição.
As redes sociais amplificam o efeito. Mensagens curtas, carregadas de emoção e partilhadas em massa, transformam episódios negativos em demonstrações de coragem e resiliência. A cada polémica, a máquina digital do Chega mobiliza apoiantes com hashtags, vídeos e transmissões ao vivo, mantendo viva a chama do confronto.
Entre a empatia e o cálculo político
Há quem veja nesta postura um traço de genuína indignação contra o sistema político. Outros, no entanto, apontam para uma utilização fria e estratégica da vitimização como ferramenta de poder. “O perigo é que esta lógica inviabiliza qualquer diálogo construtivo: se toda crítica é uma agressão, perde-se o espaço para consensos e compromissos democráticos”, alerta o sociólogo Paulo Mendes.
No fim, a questão mantém-se: Ventura é o mártir de uma causa ou o manipulador de um enredo cuidadosamente escrito? Talvez a resposta esteja na própria natureza do populismo — um jogo onde a perceção conta mais do que a realidade, e onde a narrativa da vítima pode ser, paradoxalmente, a arma mais poderosa do vencedor.