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Resumo

  • A Carta das Nações Unidas e o Estatuto do Pessoal da ONU preveem que os funcionários estejam “ao serviço exclusivo da Organização” e que “se abstenham de acções que possam comprometer a sua independência”.
  • Há momentos em que a consciência tem de falar mais alto que o regulamento”, afirma um responsável legal do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
  • Técnicos que ajudam a garantir a integridade de bases de dados de vítimas e destruição de infraestruturas;.

Quando defender os direitos humanos se torna um risco interno: vozes silenciosas de quem trabalha por dentro do sistema que ameaça colapsar sob o peso das suas próprias contradições


São centenas. Trabalham nos corredores de Genebra, nos campos da UNRWA, nas missões de paz, nas comissões temáticas, nos gabinetes do Alto Comissariado. São tradutores, juristas, investigadores, logísticos, administradores — funcionários do sistema ONU.

Desde a publicação do relatório de Francesca Albanese sobre Gaza, muitos enfrentam um dilema ético profundo: continuar a servir uma instituição que promove a dignidade humana — mas que, neste caso, parece ter virado o rosto às vítimas.

“Sinto que sou cúmplice de um silêncio institucional. Mas se sair, quem continua a lutar por dentro?”, confidencia A. M., jurista do Escritório para os Direitos Humanos da ONU, sob anonimato.

Este artigo mergulha nas tensões internas vividas pelos profissionais da ONU — num tempo em que o compromisso com os princípios universais entrou em conflito com a realpolitik das grandes potências.


“Trabalhamos com máscaras”

Desde Março de 2025, multiplicaram-se os relatos de funcionários que:

  • foram instruídos a não comentar publicamente o relatório de Albanese;
  • receberam memorandos internos sobre linguagem sensível;
  • viram projetos congelados ou revistos por pressão de Estados-membros.

“Disseram-nos que era preciso ‘preservar a neutralidade da instituição’. Mas neutralidade não pode ser sinónimo de cegueira”, relata um técnico da Divisão de Apoio às Comissões de Inquérito.

Em bastidores, circulam cartas internas, e-mails de protesto e até pedidos de transferência por razões de consciência. Muitos não podem falar — estão vinculados por cláusulas de confidencialidade e expostos a represálias formais.


Casos de consciência: demissões e rupturas discretas

Alguns casos chegaram à imprensa internacional:

  • Dois analistas do Alto Comissariado renunciaram, alegando “incapacidade institucional de responder ao genocídio em curso”;
  • Uma responsável pela UN Women demitiu-se após ter sido impedida de referir a palavra “Gaza” numa comunicação oficial sobre violência contra mulheres;
  • Técnicos locais da UNRWA escreveram cartas abertas denunciando a “instrumentalização política da ajuda humanitária”.

“É uma guerra psicológica. Estamos a ser atacados do exterior e, ao mesmo tempo, silenciados por dentro. A ONU está a tornar-se uma sombra de si mesma”, declarou, sob reserva, uma veterana da missão da UNICEF em Jerusalém Oriental.


A lealdade ao mandato… ou à humanidade?

A Carta das Nações Unidas e o Estatuto do Pessoal da ONU preveem que os funcionários estejam “ao serviço exclusivo da Organização” e que “se abstenham de acções que possam comprometer a sua independência”.

Mas há uma tensão crescente entre essa obrigação institucional e o dever moral perante a verdade e a justiça.

“Fomos ensinados a ser discretos. Mas ninguém nos preparou para termos de calar diante de um crime em massa. Há momentos em que a consciência tem de falar mais alto que o regulamento”, afirma um responsável legal do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).


A coragem silenciosa de quem resiste por dentro

Apesar do ambiente de medo, há actos de resistência interna:

  • Técnicos que ajudam a garantir a integridade de bases de dados de vítimas e destruição de infraestruturas;
  • Funcionários que garantem o acesso de investigadores externos a arquivos e provas;
  • Delegações que pressionam por uma resposta institucional mais robusta — mesmo enfrentando a oposição de países doadores.

“Há quem diga que a ONU morreu. Mas há muitos de nós que ainda a mantêm viva, à força de convicção”, escreve um grupo informal de funcionários, num manifesto partilhado anonimamente.


As linhas de falha do sistema

A crise Francesca Albanese expôs as fragilidades de um sistema que depende, financeiramente e politicamente, dos Estados que hoje intimidam, sancionam e deslegitimam os seus próprios relatores.

Não é só a relatora que está sob ataque. É todo o mecanismo de monitorização de direitos humanos. E os funcionários da ONU sabem disso.

O dilema é cruel: falar e arriscar carreira, ou calar e trair os princípios?
Numa organização que nasceu para impedir outro Holocausto, este dilema é particularmente corrosivo.


Portugal e os lusófonos na ONU: onde estão?

Portugal tem dezenas de quadros destacados em agências da ONU. Até agora, nenhum se pronunciou sobre o relatório Albanese ou sobre a crise interna que se vive nos bastidores.

A CPLP também não quebrou o silêncio. Funcionários moçambicanos, angolanos e brasileiros em missão técnica permanecem sob pressão — principalmente aqueles envolvidos em áreas de ajuda humanitária e monitorização de abusos.

“O multilateralismo lusófono, neste caso, revelou-se tímido. E o silêncio também comunica — comunica abandono”, critica a académica Lígia Fonseca, especialista em relações internacionais da Universidade de Cabo Verde.


A ONU ainda é reformável?

A questão é inquietante. Quando os próprios funcionários duvidam da capacidade da instituição para cumprir o seu mandato, a crise é mais do que funcional — é existencial.

Mas, se o sistema ruir, quem o substituirá? E com que legitimidade?

“A alternativa ao multilateralismo não é o vácuo. É a lei do mais forte. E, por isso, muitos de nós ainda resistimos — mesmo feridos”, conclui um conselheiro político do Alto Comissariado para os Direitos Humanos.


O preço da consciência

Francesca Albanese ousou dizer a verdade dentro da ONU. Pagou por isso.

Centenas de funcionários continuam a manter a máquina a funcionar — mas cada vez mais conscientes de que o sistema que servem já não os protege. Nem protege aqueles por quem foram criados: os mais vulneráveis, os perseguidos, os silenciados.

No final, esta não é só uma crise da ONU.
É uma crise da consciência global.
E os que resistem por dentro, mesmo calados, são talvez os últimos guardiões de um ideal que ainda merece ser salvo.


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