Resumo
- Como África do Sul, Brasil, Indonésia e outros Estados estão a reconfigurar o equilíbrio diplomático global — e a desafiar a hegemonia moral do Ocidente.
- O Brasil manifestou apoio ao relatório de Albanese através de declarações do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que comparou as acções de Israel em Gaza ao Holocausto — uma analogia que gerou repúdio formal de Telavive e reacção fria dos EUA.
- Estados como Bolívia, Venezuela e Nicarágua têm sido constantes na denúncia de violações de direitos humanos por parte de Israel — mas a sua posição é frequentemente ignorada ou deslegitimada por sectores diplomáticos e mediáticos do Norte Global, que os acusam de instrumentalização ideológica.
Como África do Sul, Brasil, Indonésia e outros Estados estão a reconfigurar o equilíbrio diplomático global — e a desafiar a hegemonia moral do Ocidente
Enquanto os Estados Unidos sancionavam Francesca Albanese e Israel descredibilizava o seu relatório sobre Gaza, uma outra frente diplomática começava a desenhar-se — fora dos eixos tradicionais da NATO e da União Europeia.
Nações do Sul Global ergueram-se em defesa da relatora especial da ONU. Fizeram-no em discursos formais, em resoluções conjuntas, em fóruns paralelos e em acções simbólicas. Fizeram-no não por alinhamento político, mas por princípio: o de que os direitos humanos não podem ser privilégio das potências — nem as Nações Unidas, um instrumento das mesmas.
Esta reportagem mapeia essa reacção, analisa o seu significado geopolítico e projeta o que ela anuncia: um novo multilateralismo, mais horizontal, mais plural — e possivelmente mais legítimo.
África do Sul: liderança moral e coerência histórica
A África do Sul foi o primeiro Estado a declarar oficialmente que as acções de Israel em Gaza configuram genocídio. Fê-lo no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), apoiando-se em jurisprudência, no relatório de Albanese e em provas recolhidas por ONGs palestinianas.
A acusação valeu-lhe ameaças diplomáticas, pressão financeira e críticas da imprensa ocidental. Mas Pretória não recuou. Recebeu Albanese em sessões públicas, organizou encontros paralelos à ONU em sua defesa e lidera uma coligação informal de países que exigem sanções contra Israel.
“Temos uma dívida histórica com a solidariedade internacional. Não podemos assistir em silêncio ao que se passa em Gaza, como o mundo assistiu ao apartheid na África do Sul”, afirmou o ministro da Justiça, Ronald Lamola.
Brasil: entre Lula e o Itamaraty, uma diplomacia dividida
O Brasil manifestou apoio ao relatório de Albanese através de declarações do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que comparou as acções de Israel em Gaza ao Holocausto — uma analogia que gerou repúdio formal de Telavive e reacção fria dos EUA.
Apesar do discurso firme do presidente, o Itamaraty oscilou entre a cautela institucional e a tentativa de mediação. Nos bastidores da ONU, diplomatas brasileiros têm defendido a não-sanção de relatores especiais e o reforço da autonomia do sistema de direitos humanos.
“O Brasil quer recuperar o papel de mediador global, mas sem abdicar de princípios. O desafio é manter essa linha num sistema dominado por assimetrias brutais”, resume a analista política Adriana Erthal Abdenur.
Indonésia, Malásia e os países da ASEAN: firmeza islâmica e pragmatismo estratégico
Com grande maioria muçulmana e envolvimento directo em fóruns do Sul Global, países como Indonésia e Malásia emitiram comunicados oficiais em apoio a Francesca Albanese e ao seu relatório. Defendem um cessar-fogo imediato, a responsabilização dos crimes de guerra e a actuação do Tribunal Penal Internacional.
Estes países têm histórico de diplomacia de solidariedade — mas nos últimos anos adoptaram também uma postura mais pragmática, ampliando influência no G77 e nos BRICS+.
A Indonésia, em particular, convocou sessões extraordinárias de diplomacia paralela, tentando consolidar um bloco ético alternativo às potências ocidentais.
Bolívia, Nicarágua e os “radicais” do hemisfério sul
Estados como Bolívia, Venezuela e Nicarágua têm sido constantes na denúncia de violações de direitos humanos por parte de Israel — mas a sua posição é frequentemente ignorada ou deslegitimada por sectores diplomáticos e mediáticos do Norte Global, que os acusam de instrumentalização ideológica.
No entanto, é inegável que, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a maioria dos votos em defesa de Francesca Albanese veio de países do Sul. Uma coligação informal de Estados que, embora diversos nos regimes e políticas, convergem na rejeição da ordem internacional desigual.
África em bloco: a moralidade das margens
Para além da África do Sul, vários países africanos subscreveram intervenções em defesa da relatora da ONU, nomeadamente Senegal, Namíbia, Argélia, Moçambique e Uganda. A memória do colonialismo, da opressão sistemática e da instrumentalização das instituições internacionais conferem à África uma autoridade moral rara neste debate.
“A ONU precisa de ouvir quem já foi vítima do silêncio institucional”, afirmou a representante do Gana durante a sessão de Abril em Genebra.
Um novo multilateralismo?
A reacção do Sul Global ao relatório de Francesca Albanese pode parecer dispersa. Mas o padrão é claro: são os países historicamente marginalizados do sistema internacional que hoje defendem os seus princípios com mais clareza.
Esta inversão levanta uma questão incômoda: será que os direitos humanos se tornaram um discurso descartável para o Norte Global, quando os seus aliados são os acusados?
O silêncio das potências ocidentais perante as sanções contra uma relatora da ONU coloca em causa décadas de construção normativa. O Sul Global, ao contrário, tem vindo a preencher esse vácuo — com imperfeições, sim, mas com mais coragem do que se esperava.
Portugal, Europa e a ambiguidade moral
Num cenário em que a liderança ética do Norte está ausente, a Europa hesita. Países como a Irlanda e a Bélgica manifestaram preocupação. Mas outros, como Portugal, mantêm uma neutralidade que arrisca ser interpretada como omissão.
“A divisão interna da UE sobre o conflito de Gaza é sintoma de um colapso moral. E onde não há unidade ética, não pode haver legitimidade política”, sustenta o investigador português Tiago Rodrigues, do IPRI.
O futuro começa no Sul?
Francesca Albanese pode ter perdido apoio nas capitais da NATO. Mas ganhou legitimidade nas ruas do Sul Global, nas universidades africanas, nos parlamentos latino-americanos, nos fóruns pan-islâmicos. É lá que o sistema multilateral encontra hoje os seus defensores mais coerentes.
E talvez seja essa a maior ironia — e a maior esperança:
Que os valores universais de dignidade, justiça e autodeterminação, tantas vezes impostos de cima para baixo, renasçam agora a partir de baixo. A partir do Sul.