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Resumo

  • No dia 24 de Abril de 1974, ao final da tarde, Manuel dirigia-se a uma reunião clandestina com outros trabalhadores quando foi interceptado por dois agentes da PIDE, em plena via pública, junto à estação do Cais do Sodré.
  • Enquanto os tanques se moviam discretamente pela cidade e os comunicados dos Capitães de Abril começavam a circular em frequência codificada, a PIDE actuava como se o país estivesse normal.
  • A repressão só cessou de facto quando o Quartel do Carmo caiu e os edifícios da PIDE foram ocupados.

Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, Portugal acordava em insurreição. Mas, nas horas anteriores ao colapso da ditadura, a máquina repressiva da PIDE ainda operava com letal precisão.
A última vítima mortal da polícia política do Estado Novo morreu a poucas horas da Revolução triunfar. Não foi um acidente do destino. Foi um acto deliberado — e impune.

Este artigo reconstitui, com base em fontes documentais e testemunhos, a história do assassinato de Manuel Augusto Tomé, o último português morto pela PIDE, em pleno coração de Lisboa. Uma história que encerra a brutalidade final do regime e lança luz sobre os minutos sombrios antes da alvorada democrática.


Quem era Manuel Augusto Tomé?

Manuel Tomé era operário da Lisnave e activista sindical. Natural de Almada, militante clandestino do PCP, era conhecido por organizar greves e distribuir panfletos antifascistas na margem sul do Tejo.

No dia 24 de Abril de 1974, ao final da tarde, Manuel dirigia-se a uma reunião clandestina com outros trabalhadores quando foi interceptado por dois agentes da PIDE, em plena via pública, junto à estação do Cais do Sodré.

Segundo testemunhos recolhidos mais tarde por colegas e vizinhos, foi algemado, espancado e levado num carro sem matrícula. Horas depois, apareceu morto no Hospital de São José. A versão oficial: “paragem cardíaca”.

Mas o corpo apresentava hematomas, costelas partidas e sinais claros de tortura.


A negação oficial e o silêncio mediático

Como em tantos outros casos anteriores, a versão oficial foi rápida e implacável: “Não houve violência. O cidadão morreu por causas naturais durante uma abordagem de rotina.”

A imprensa controlada pelo regime não noticiou o caso. Não há qualquer menção nos jornais do dia seguinte. A família foi impedida de organizar funeral público. O corpo foi enterrado discretamente, com vigilância policial.

Mas nos círculos clandestinos da oposição, a notícia correu de boca em boca: “A PIDE matou mais um.” A diferença é que, dessa vez, seria o último.


A noite de 24 para 25 de Abril: repressão em marcha

Enquanto os tanques se moviam discretamente pela cidade e os comunicados dos Capitães de Abril começavam a circular em frequência codificada, a PIDE actuava como se o país estivesse normal.
Mandados de busca, prisões de última hora, interrogações em Caxias e Peniche — até ao último minuto, a estrutura repressiva não abrandou.

Relatórios internos revelados anos depois confirmam que a PIDE não previa a dimensão da Revolução. Acreditava estar a enfrentar mais uma “tentativa de desestabilização subversiva”.

Foi neste contexto que Manuel Tomé foi morto: como parte de uma normalidade repressiva brutal, a horas do regime ruir.


Outras vítimas na fronteira da Revolução

Embora Manuel Tomé seja considerado a última vítima fatal directa da PIDE, houve outros casos de repressão nos dias que antecederam e sucederam o 25 de Abril:

  • António Lopes Cardoso, destacado militante socialista, foi preso dias antes da Revolução, libertado no dia 26.
  • Maria Luísa Costa Dias, médica e resistente, foi vigiada até às vésperas do golpe.
  • Jovens estudantes foram detidos na noite de 24 por colarem cartazes em Setúbal e Braga.

A repressão só cessou de facto quando o Quartel do Carmo caiu e os edifícios da PIDE foram ocupados.


O julgamento que nunca chegou

Com o fim da ditadura, a expectativa era clara: que os crimes da PIDE fossem julgados, os culpados identificados e os mortos reconhecidos.

Mas o processo foi tudo menos exemplar.

No caso de Manuel Tomé, nunca houve acusação formal. A certidão de óbito manteve a versão da “morte súbita”. A família nunca foi indemnizada. Os agentes envolvidos desapareceram do radar judicial.
A Lei n.º 8/75 — que determinava o julgamento dos responsáveis da repressão — foi aplicada de forma limitada e, muitas vezes, simbólica.

Hoje, o nome de Manuel Tomé não consta de placas, manuais escolares ou memoriais públicos. Apenas nas memórias de antigos camaradas e em alguns documentos de arquivo se preserva a verdade.


A urgência da justiça histórica

Num país onde se multiplicam os revisionismos, onde se dilui o impacto da ditadura em “memórias suaves”, é urgente recuperar os nomes e rostos daqueles que pagaram com a vida a ousadia de pensar livremente.

A história de Manuel Tomé é a história de todos os que morreram na véspera da liberdade. A sua ausência de justiça é um espelho das falhas da transição democrática.


Porque uma revolução que não reconhece os seus mortos deixa o passado à mercê da indiferença.

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