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Resumo

  • Em 2024, os dados do relatório Portugal, Balanço Social mostram de forma cristalina o impacto que as prestações sociais têm na redução da pobreza — e revelam também os seus limites.
  • Sem pensões, abonos, subsídios de desemprego, rendimento social de inserção e outros apoios, a taxa de risco de pobreza em Portugal dispararia de 17% para uns impressionantes 42,2%.
  • As prestações dirigidas às famílias com crianças — como o abono de família, o complemento por dependência ou o apoio às famílias monoparentais — têm impacto directo na redução da pobreza infantil.

Por Redacção

Num país onde quase dois milhões de pessoas vivem em risco de pobreza, as transferências sociais representam mais do que um apoio: são, para muitos, a linha que separa a sobrevivência da exclusão. Em 2024, os dados do relatório Portugal, Balanço Social mostram de forma cristalina o impacto que as prestações sociais têm na redução da pobreza — e revelam também os seus limites.

Sem pensões, abonos, subsídios de desemprego, rendimento social de inserção e outros apoios, a taxa de risco de pobreza em Portugal dispararia de 17% para uns impressionantes 42,2%. Ou seja, mais do dobro da população ficaria abaixo da linha de pobreza. Este é o peso concreto das transferências sociais: um travão eficaz, mas ainda insuficiente.

Pensão, o verdadeiro colchão social

Entre todos os apoios, as pensões de velhice são as que mais contribuem para reduzir o risco de pobreza. Para milhares de idosos, sobretudo mulheres, sem carreiras contributivas completas ou com reformas baixas, são o único rendimento disponível. Em muitas zonas do interior, a pensão é também o sustento do agregado familiar alargado.

Contudo, o relatório alerta para um dado inquietante: mesmo com pensão, mais de 20% dos idosos vivem em situação de privação material e social. Isto mostra que, embora cruciais, as pensões mínimas continuam longe de garantir uma vida com dignidade.

Apoios às famílias: eficazes, mas desiguais

As prestações dirigidas às famílias com crianças — como o abono de família, o complemento por dependência ou o apoio às famílias monoparentais — têm impacto directo na redução da pobreza infantil. Mas ainda não chegam a todos os que precisam, nem sempre são fáceis de aceder, e os montantes continuam aquém do necessário.

Famílias numerosas, monoparentais ou com membros com deficiência enfrentam desafios financeiros acrescidos, e muitas vezes não conseguem aceder a todos os apoios por desconhecimento, burocracia ou exigências administrativas desajustadas da realidade.

“Fui pedir o abono para a minha filha, mas faltava um documento. Quando voltei, disseram que o prazo tinha passado. Desisti. Não tenho tempo nem cabeça para tanta papelada.” — desabafa Carla, mãe solteira em Setúbal.

Desemprego e exclusão: o lado mais frágil

As prestações de desemprego e o rendimento social de inserção (RSI) são os apoios mais associados ao estigma. No entanto, são também os mais importantes para evitar a pobreza extrema em situações de ruptura — perda de emprego, doença, separação, sem-abrigo.

O problema? Muitos desempregados não têm direito ao subsídio por não cumprirem os critérios de acesso (tempo de descontos, motivo da cessação, etc.). E o RSI, apesar de essencial para os mais vulneráveis, é alvo de cortes e condicionamentos frequentes. Em 2024, o número de beneficiários do RSI voltou a baixar — não porque haja menos pobreza, mas porque o acesso continua apertado.

Transferir sim — mas e depois?

As transferências sociais são uma almofada, mas não um trampolim. Reduzem a pobreza imediata, mas não resolvem as causas estruturais: salários baixos, habitação cara, precariedade, exclusão educativa. Sozinhas, não chegam. Precisam de ser combinadas com políticas activas de emprego, habitação digna, apoio à parentalidade, investimento na educação e saúde.

Além disso, é essencial simplificar o acesso e eliminar o estigma. Receber apoio social não é sinal de preguiça — é, muitas vezes, o único caminho possível num sistema que continua a deixar muitos para trás.

Vale a pena transferir? Claramente. Mas falta coragem para ir mais longe

O relatório é claro: as transferências sociais são um dos instrumentos mais eficazes que o Estado tem para combater a pobreza. Mas o impacto está longe do potencial máximo. É preciso reforçá-las, torná-las mais justas, mais rápidas, mais adequadas às novas realidades — e integrá-las numa estratégia ambiciosa de coesão social.

Porque, no fim, o que está em causa não é apenas o valor das prestações. É o valor que damos à vida das pessoas.

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