Resumo
- Em 2024, as mulheres continuavam a ganhar, em média, menos do que os homens — mesmo quando tinham as mesmas qualificações, a mesma experiência e, por vezes, até mais responsabilidades.
- A falta de transparência salarial, a inexistência de auditorias obrigatórias nas empresas e o fraco poder fiscalizador da Autoridade para as Condições do Trabalho tornam difícil corrigir injustiças.
- Enquanto os dados continuarem a mostrar que uma mulher vale menos do que um homem no final do mês, a igualdade será apenas um slogan.
Por Redacção
Portugal gosta de se ver como um país de avanços na igualdade de género. Mas quando se olha para os números, a retórica esbarra na realidade. Em 2024, as mulheres continuavam a ganhar, em média, menos do que os homens — mesmo quando tinham as mesmas qualificações, a mesma experiência e, por vezes, até mais responsabilidades.
Segundo o relatório Portugal, Balanço Social 2024, o rendimento médio mensal das mulheres equivalia a 84,7% do dos homens. Traduzido em euros, isto representa uma diferença significativa no final de cada mês. E mais grave ainda: essa desigualdade mantém-se mesmo quando se excluem os efeitos da profissão ou do sector de actividade.
Não é só “porque trabalham menos”
Durante anos, tentou justificar-se esta disparidade com argumentos como “as mulheres escolhem sectores menos pagos” ou “trabalham mais a tempo parcial”. Mas os dados mostram que, mesmo entre homens e mulheres com características profissionais semelhantes, a diferença persiste. Isso tem um nome: discriminação salarial directa ou indirecta.
A penalização da maternidade é um exemplo. As mulheres em idade fértil ou com filhos são frequentemente vistas como “menos disponíveis”, o que se reflecte em promoções perdidas, aumentos adiados ou contratos não renovados. Já os homens com filhos, por contraste, são muitas vezes percepcionados como mais responsáveis e estáveis.
Toque de vidro: elas sobem… até certo ponto
Outro fenómeno bem documentado é o chamado “tecto de vidro”. As mulheres estão cada vez mais presentes nas universidades, nos quadros médios, nas profissões qualificadas. Mas quando chega a hora de subir para cargos de liderança, a escada começa a falhar degraus.
Em 2024, as mulheres representavam apenas 37% dos cargos de chefia em Portugal. E mesmo nesses postos, ganhavam em média menos do que os homens na mesma posição. A desigualdade, portanto, não é apenas no acesso — é também na remuneração pelo mesmo mérito.
“Trabalho há 15 anos na empresa, lidero uma equipa e sou responsável por resultados. Só descobri que o meu colega, com funções iguais, ganha mais 400 euros por mês… quando ele próprio mo disse.” — partilha Joana, gestora na área das tecnologias.
Desigualdade que se acumula com o tempo
A diferença salarial entre homens e mulheres não se mede apenas no presente. Acumula-se ao longo de décadas. Menores salários significam menores contribuições para a Segurança Social, menos acesso a crédito, menos poupança e, inevitavelmente, pensões mais baixas.
As mulheres portuguesas, mesmo depois de uma vida de trabalho, enfrentam uma velhice mais pobre. E o risco de pobreza entre pensionistas do sexo feminino é significativamente superior ao dos homens — especialmente entre as que foram mães, divorciadas ou trabalharam em regime parcial.
O papel do Estado e das empresas
A legislação existe: igualdade de salário para trabalho igual ou de valor igual. Mas a aplicação prática continua a ser frouxa. A falta de transparência salarial, a inexistência de auditorias obrigatórias nas empresas e o fraco poder fiscalizador da Autoridade para as Condições do Trabalho tornam difícil corrigir injustiças.
O relatório apela a medidas concretas: obrigatoriedade de relatórios de igualdade salarial em médias e grandes empresas, reforço da negociação colectiva com cláusulas específicas, incentivo à partilha parental efectiva e penalizações para discriminação comprovada.
Mais do que uma questão de justiça, é de futuro
Corrigir a desigualdade salarial não é só uma exigência ética — é uma necessidade económica. Num país com uma taxa de natalidade baixa, envelhecimento acelerado e crescente pressão sobre os serviços sociais, não faz sentido desperdiçar talento nem penalizar metade da população.
A igualdade salarial melhora o poder de compra, fortalece as famílias, promove independência financeira e combate a pobreza feminina. É, em suma, um motor de progresso colectivo.
Enquanto os dados continuarem a mostrar que uma mulher vale menos do que um homem no final do mês, a igualdade será apenas um slogan. E Portugal, um país com metas bonitas… mas contas injustas.