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Resumo

  • A retórica que opõe o “povo puro” às minorias — sejam estas étnicas, religiosas, políticas ou ideológicas — constrói um campo de batalha simbólico onde a identidade nacional é usada como arma e escudo.
  • E o que sobra da democracia quando o pluralismo se torna alvo.
  • E quem se atreve a defender os que ficam do lado de fora.

Lide:
Nos discursos populistas contemporâneos, a figura do “inimigo interno” emerge como peça central. A retórica que opõe o “povo puro” às minorias — sejam estas étnicas, religiosas, políticas ou ideológicas — constrói um campo de batalha simbólico onde a identidade nacional é usada como arma e escudo.

Corpo:
A narrativa é simples, mas eficaz: existe um “nós”, autêntico, moralmente superior, dono da terra e da verdade. E depois, há o “outro” — infiltrado, corruptor, traidor. Este binarismo, frequentemente alimentado por líderes que se proclamam porta-vozes das massas silenciadas, ganha forma através de slogans, leis e até políticas públicas.

“Os populismos de direita, em particular, recorrem à idealização do ‘povo verdadeiro’ como forma de excluir qualquer dissidência,” afirma João Mendes, investigador em comunicação política. “As minorias tornam-se alvo não por algo que fizeram, mas por aquilo que simbolizam: a pluralidade, o debate, a diferença.”

Esta construção é recorrente na história. Em regimes autoritários — do fascismo europeu ao nacionalismo etnocêntrico recente — o inimigo interno desempenhou sempre um papel funcional: justificar o controlo, canalizar frustrações, legitimar abusos.

Hoje, o processo repete-se em novas roupagens. Redes sociais e canais de informação alternativos amplificam as vozes que apelam ao ressentimento. Uma deputada “anti-sistema” denuncia que “os globalistas, os imigrantes e os ideólogos de género” ameaçam as “nossas crianças”. Num discurso que mistura medo com patriotismo, as minorias são associadas ao caos — e o líder, ao resgate.

“Há um ciclo emocional muito poderoso: simplificação, culpabilização, punição. É isto que torna este tipo de retórica tão apelativo em tempos de crise”, explica Sofia Loureiro, socióloga da Universidade Nova de Lisboa.

A retórica do inimigo interno não é apenas discurso. Alimenta práticas concretas: vigilância direccionada, exclusão institucional, legislação punitiva. Em alguns países, ser diferente é suficiente para ser suspeito. Em outros, já é motivo de detenção.

E o que sobra da democracia quando o pluralismo se torna alvo? Quando a dissidência é lida como traição?

Este antagonismo não é neutro. Divide famílias, silencia vozes, destrói pontes. Ao reduzir a sociedade a dois blocos inconciliáveis, a linguagem populista mina os alicerces da convivência democrática.

Por fim, a questão impõe-se: quem decide quem pertence ao “nós”? E quem se atreve a defender os que ficam do lado de fora?

Porque — convenhamos — hoje é o outro. Amanhã, podemos ser nós.

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