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Resumo

  • Num território onde o acesso a serviços básicos já era limitado, a destruição sistemática de infraestruturas de saúde, saneamento e abrigo tornou a vida das mulheres insustentável.
  • A ausência de acompanhamento pré-natal, de antibióticos e de incubadoras leva a complicações evitáveis e a uma mortalidade perinatal alarmante.
  • Cozinhar sem gás ou lenha, improvisar refeições com o que resta, cuidar de crianças traumatizadas, gerir a dor da perda — as mulheres em Gaza desempenham estas tarefas num contexto onde a sobrevivência já é frágil.

Na Faixa de Gaza, ser mulher em tempo de guerra é viver entre ruínas físicas e emocionais, carregando o fardo invisível de uma resistência que raramente tem voz. Desde o início do conflito em Outubro de 2023, mais de oito mil mulheres foram mortas, segundo os dados mais recentes, mas o número diz pouco sobre o que significa sobreviver. Porque nesta guerra, sobreviver também é um campo de batalha.

Invisibilidade e Impacto Desproporcional

As mulheres representam cerca de 16% das vítimas mortais identificadas em Gaza. Os números, no entanto, não espelham o seu sofrimento específico. Para além do risco directo de morte e ferimentos, as mulheres enfrentam uma sobrecarga de funções — cuidar dos filhos, procurar comida, garantir algum abrigo — enquanto tentam manter unida uma família em constante deslocação.

A guerra exacerbou desigualdades pré-existentes. Num território onde o acesso a serviços básicos já era limitado, a destruição sistemática de infraestruturas de saúde, saneamento e abrigo tornou a vida das mulheres insustentável. Estão mais expostas à fome, à doença, à exaustão física e mental — e à violência.

Crise de Saúde Materna: A Gravidez sob Cerco

O sistema de saúde de Gaza colapsou. Apenas metade dos hospitais funciona, e de forma intermitente. Num cenário de escassez de combustível, medicamentos e profissionais de saúde, a maternidade tornou-se uma roleta russa. O Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) estima que cerca de 150 mil grávidas e mulheres que deram à luz nos últimos meses estejam deslocadas e sem acesso a cuidados adequados.

A ausência de acompanhamento pré-natal, de antibióticos e de incubadoras leva a complicações evitáveis e a uma mortalidade perinatal alarmante. Casos de partos em abrigos insalubres, de cesarianas improvisadas e de bebés que morrem por hipotermia são cada vez mais frequentes.

Violência Baseada no Género: Um Perigo Silencioso

A guerra em Gaza aumentou significativamente os riscos de violência baseada no género (VBG). As deslocações forçadas, os abrigos sobrelotados e o colapso das estruturas sociais criaram um ambiente propício ao abuso. O encerramento das vias de referência para casos de VBG significa que muitas vítimas ficam em silêncio — por medo, por vergonha ou simplesmente por não saberem onde procurar ajuda.

Mulheres relataram episódios de abuso doméstico e assédio sexual nos pontos de distribuição de alimentos. Num contexto de escassez extrema, onde o acesso a produtos de higiene e privacidade é nulo, o corpo feminino torna-se alvo e moeda.

A ONU e várias organizações de direitos humanos, incluindo o ACNUDH, documentaram episódios de violência sexual cometidos durante operações militares, o que poderá configurar crimes de guerra.

Sobrevivência com Dignidade: Um Desafio Diário

Cozinhar sem gás ou lenha, improvisar refeições com o que resta, cuidar de crianças traumatizadas, gerir a dor da perda — as mulheres em Gaza desempenham estas tarefas num contexto onde a sobrevivência já é frágil. Muitas recorrem a queimar plástico ou lixo para preparar comida, expondo-se a doenças respiratórias graves.

E quando procuram ajuda? Encontram filas intermináveis, falta de distribuição equitativa e, muitas vezes, discriminação. As suas necessidades específicas continuam ausentes de muitas respostas humanitárias padronizadas, pensadas para “famílias” mas não para “mulheres”.


As mulheres de Gaza enfrentam não só os horrores da guerra, mas também a invisibilidade das suas dores. Num cenário onde tudo ruge e tudo se esmaga, o seu silêncio tem de ser escutado. Porque não há paz possível sem justiça para quem carrega o mundo — mesmo quando este mundo se desmorona.

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