Resumo
- O Media Pluralism Monitor 2024 e 2025, coordenado pelo Centro para o Pluralismo e Liberdade dos Media, desenha o retrato mais fino.
- O relatório europeu de 2025 fala mesmo numa “batalha existencial” pela liberdade de imprensa e pluralismo na UE, com concentração e interferência política a crescer em vários países.
- Grande, ainda, é a distância entre a liberdade no papel e o tempo real para a exercer.
Portugal aparece, em 2025, no top 10 mundial da liberdade de imprensa, em 8.º lugar entre 180 países, com uma pontuação de 84,26 no índice dos Repórteres Sem Fronteiras. reutersinstitute.politics.ox.ac.uk+1 À superfície, é um retrato confortável: liberdade de imprensa robusta, poucos ataques físicos a jornalistas, quadro legal sólido. Mas por baixo dos rankings há outra história – feita de pluralismo mediático em risco, concentração media Portugal, precariedade jornalismo e um regulador, a ERC, que corre atrás de um mercado cada vez mais frágil. The Guardian+2erc.pt+2
Este texto tenta fazer o que os gráficos fariam: pegar nos dados, ligar os pontos e responder à pergunta incómoda – onde é que a liberdade de imprensa Portugal está mesmo em risco, apesar das medalhas?
Pluralismo mediático: bom no papel, mais frágil no mercado
O Media Pluralism Monitor 2024 e 2025, coordenado pelo Centro para o Pluralismo e Liberdade dos Media, desenha o retrato mais fino. Para Portugal, o relatório indica:
- Baixo risco (31%) em “proteção fundamental” – direitos, liberdade de expressão, algum enquadramento laboral;
- Baixo risco (31%) em “independência política” – regras formais que limitam controlo partidário direto;
- Risco médio (56–61%) em “pluralidade de mercado” e “inclusão social”, com tendência de agravamento;
- E, no relatório nacional de 2025, um alerta: o subindicador “pluralidade de prestadores de media” atinge a faixa de risco “muito elevado”, devido à concentração de propriedade e à força das plataformas globais. gerador.eu+3research.unl.pt+3srv700518.hstgr.cloud+3
Traduzido: não é tanto a polícia que ameaça o pluralismo, é o mapa de donos. Poucos grupos controlam muito do que se lê, ouve e vê. E a lei portuguesa só coloca limites quantitativos claros na rádio e na televisão; na imprensa e nos media digitais, o quadro é bem mais brando. Euromedia Ownership Monitor
Micro-história: numa cidade média, um empresário local compra primeiro o jornal regional, depois a rádio e, mais tarde, um portal noticioso. Nada disto é ilegal. Quando surge uma investigação sobre contratos da sua rede de empresas com a autarquia, a redação hesita. “Se fizermos esta manchete, quem paga os ordenados para o mês que vem?” A liberdade formal não muda; o pluralismo real encolhe.
A objeção típica surge depressa: “Mas não é assim em todo o lado? Os media estão a concentrar-se em todo o mundo.” Verdade. O relatório europeu de 2025 fala mesmo numa “batalha existencial” pela liberdade de imprensa e pluralismo na UE, com concentração e interferência política a crescer em vários países. The Guardian+1 A diferença é que, em Portugal, essa fragilidade convive com rankings muito bons – e isso pode adormecer alarmes.
Precariedade jornalismo: liberdade com salário curto
Ao lado da concentração, vive a precariedade jornalismo. A Fundação Francisco Manuel dos Santos resume assim, num podcast de 2025: “Ser jornalista tornou-se um ofício maltratado e mal pago”. Fundação Francisco Manuel dos Santos+3Fundação Francisco Manuel dos Santos+3Podtail+3
Um estudo de 2022–2023 sobre condições de vida e bem-estar dos jornalistas, com mais de 800 inquiridos, encontrou um padrão consistente:
- salários baixos e contratos a prazo;
- sobrecarga horária e trabalho ao domicílio;
- conflitos éticos frequentes, ligados à falta de tempo para verificar e à pressão comercial;
- sintomas de esgotamento e quebra de confiança na profissão. apimprensa.pt+2jornalistas.eu+2
Grande, ainda, é a distância entre a liberdade no papel e o tempo real para a exercer.
Micro-história: Joana, 29 anos, é jornalista freelancer. Escreve para três redações, faz rádio aos fins-de-semana e ainda gere redes sociais de um pequeno município para pagar contas. Ganha, somando tudo, pouco mais do que o salário médio. Quando aparece uma pista séria sobre corrupção local, hesita: se avançar contra o autarca, perde o contrato que lhe paga a renda.
Legalmente, ninguém a impede de publicar. Na prática, o preço de o fazer pode ser demasiado alto para quem vive no fio da navalha.
Concessão honesta: precariedade não é exclusividade da profissão; atinge grande parte dos jovens trabalhadores portugueses. Fundação Francisco Manuel dos Santos Mas, no jornalismo, tem um efeito extra – cada salário frágil é uma coluna mais vulnerável à pressão económica e política.
Regulação ERC: guardião com pouco músculo financeiro
A regulação ERC é o outro lado desta equação. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social publica relatórios anuais sobre pluralismo, deliberações e, desde 2024, uma análise económico-financeira detalhada do setor dos media em 2023. erc.pt+2erc.pt+2
Nesses documentos, a ERC sublinha:
- queda prolongada de receitas na imprensa, com forte dependência de publicidade;
- margens de lucro muito reduzidas ou negativas em vários títulos;
- necessidade de reforçar a sustentabilidade do setor para garantir pluralismo. erc.pt+2erc.pt+2
Ao mesmo tempo, estudos europeus sobre concentração media Portugal assinalam um quadro legal incompleto: a lei trata sobretudo da concentração horizontal em rádio e TV, não cobre bem novas formas de integração entre plataformas digitais, produção e distribuição. Euromedia Ownership Monitor+1
A pergunta do leitor impõe-se: “Então a ERC não está a fazer o seu trabalho?”
Não é tão simples. A ERC atua, sanciona, produz relatórios e trava algumas operações. Mas trabalha com recursos limitados, quadro legal cheio de zonas cinzentas e um mercado em rápida mutação, em que gigantes globais (plataformas, motores de busca, redes sociais) condicionam a circulação de notícias sem estarem plenamente sob a sua alçada. erc.pt+2epra.org+2
Concessão honesta: nenhuma regulação nacional, sozinha, resolve a pressão de plataformas globais. Daí a importância do European Media Freedom Act, que tenta criar um quadro comum europeu para proteger jornalistas e garantir independência dos reguladores – um diploma que, segundo vários observadores, enfrenta resistências na aplicação prática. The Guardian+1
Liberdade de imprensa Portugal riscos: o que vigiar nos próximos anos
Se fosse um infográfico, este texto deixaria três caixas a piscar em vermelho-alaranjado:
- Pluralismo mediático sob pressão – concentração de propriedade, risco elevado em “Market Plurality” e impacto crescente das plataformas na distribuição de notícias. Euromedia Ownership Monitor+3srv700518.hstgr.cloud+3research.unl.pt+3
- Precariedade jornalismo – equipas reduzidas, salários baixos, esgotamento e conflitos éticos que minam a capacidade de fazer investigação demorada. CCPJ – Português+3Fundação Francisco Manuel dos Santos+3Fundação Francisco Manuel dos Santos+3
- Regulação ERC com meios limitados – bons diagnósticos, mas pouca capacidade para intervir num ecossistema dominado por lógicas comerciais e tecnológicas que extravasam fronteiras nacionais. erc.pt+3erc.pt+3erc.pt+3
Tudo isto num país que continua, e bem, no topo da liberdade de imprensa Portugal nos rankings globais. reutersinstitute.politics.ox.ac.uk+1O ponto humano pode dizer-se assim: liberdade de imprensa não morre num decreto – morre aos poucos, quando já ninguém tem tempo, dinheiro ou independência para a exercer.