Resumo
- Entre as acusações menos discutidas e mais controversas relacionadas com a Nakba de 1948 está o alegado envenenamento deliberado de fontes de água palestinianas por forças sionistas.
- Segundo o historiador Ilan Pappé e diversos testemunhos palestinianos, houve surtos de tifo e disenteria em vilas como Acre (Akka) logo após a entrada das tropas judaicas, coincidindo com relatos de “movimentações estranhas” junto aos poços.
- Em 1995, o jornalista Uri Davis e os historiadores Teddy Katz e Sharif Kanaana publicaram fragmentos de um relatório do Palmach (a unidade de elite do Haganah) que mencionava “operações especiais de controlo hídrico” sem especificar as substâncias usadas.
Entre as acusações menos discutidas e mais controversas relacionadas com a Nakba de 1948 está o alegado envenenamento deliberado de fontes de água palestinianas por forças sionistas. Para alguns, estas histórias são mitos de guerra; para outros, fazem parte de uma campanha de limpeza étnica que procurou expulsar populações inteiras.
Segundo o historiador Ilan Pappé e diversos testemunhos palestinianos, houve surtos de tifo e disenteria em vilas como Acre (Akka) logo após a entrada das tropas judaicas, coincidindo com relatos de “movimentações estranhas” junto aos poços. Relatórios da ONU e da Cruz Vermelha referem casos de doenças inexplicáveis em zonas cercadas e documentam queixas de líderes árabes sobre contaminação de água.
Investigações posteriores trouxeram alguma luz. Em 1995, o jornalista Uri Davis e os historiadores Teddy Katz e Sharif Kanaana publicaram fragmentos de um relatório do Palmach (a unidade de elite do Haganah) que mencionava “operações especiais de controlo hídrico” sem especificar as substâncias usadas. Outros documentos, obtidos em arquivos militares, indicam que laboratórios ligados ao cientista Ephraim Katzir investigavam agentes biológicos, mas não há prova definitiva de que tenham sido usados.
Especialistas como o advogado Michael Sfard defendem que a acumulação de indícios justifica uma investigação internacional: qualquer contaminação intencional de recursos civis seria um crime de guerra. A organização Zochrot também pede que Israel desclassifique todos os arquivos. Por outro lado, historiadores como Yoav Gelber consideram as acusações mera propaganda de guerra, embora reconheçam que existiram unidades de sabotagem hídrica.
Se confirmado, o envenenamento de poços seria uma das primeiras utilizações de armas biológicas no pós-guerra. O tema, contudo, permanece numa zona cinzenta: falta acesso a documentos, faltam estudos independentes, e o assunto é evitado tanto na história oficial israelita como nos manuais escolares palestinianos.
Para os refugiados, a memória persiste. Em campos da Cisjordânia e da Jordânia, é comum ouvir que “até a água nos foi negada”. O trauma simbólico reforça a sensação de que a Nakba foi uma guerra não só pelos territórios, mas pelo próprio direito a existir.
Sem acesso completo aos arquivos e sem uma investigação forense independente, é impossível chegar a um veredicto final. Mas o debate obriga a lembrar que, num conflito assimétrico, as armas usadas podem ser mais subtis do que as bombas. E que a transparência histórica é condição para qualquer reconciliação futura.