O que falta na denúncia do BE sobre os sites bloqueados pela Marinha - Sociedade Civil
Partilha

Resumo

  • o site do PCP está bloqueado, mas o da CDU — coligação onde o PCP é a força central — é acessível.
  • Se houvesse um operador a escolher manualmente sites a bloquear, teria bloqueado também a CDU, teria bloqueado o PCTP-MRPP, e não teria bloqueado o PPM e o ADN.
  • O ponto honesto — e desconfortável para os dois lados — é que num sistema delegado a software comercial, o resultado pode ser politicamente enviesado sem que ninguém tenha tomado uma decisão política.

A tese do Bloco de Esquerda é simples: a Marinha filtra cirurgicamente a esquerda parlamentar. Os dados confirmam parte da denúncia — e contradizem outra parte. Verificação ponto a ponto.

A pergunta parlamentar entregue pelo deputado Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, sustenta que existe “um padrão no bloqueio à informação dos partidos da esquerda” na rede de internet da Marinha. A denúncia foi reproduzida por vários órgãos. Vale a pena olhar para o que está e o que não está demonstrado.

O que está confirmado

Que os sites do Bloco, do PCP, do Livre e do PS estão inacessíveis na rede da Marinha — confirmado pela própria Armada em resposta à agência Lusa. Que os sites de partidos à direita e à extrema-direita acessíveis na mesma rede — confirmado pelo mesmo canal. Que aparece a mensagem “Conteúdo bloqueado por políticas de proxy — Marinha” nalguns casos — confirmado pelas capturas de ecrã divulgadas pela página “Contra Narrativa”.

Até aqui, a denúncia é factual.

O que a Marinha acrescentou e enfraquece a tese de “filtro cirúrgico à esquerda”

O porta-voz do ramo deu três contra-exemplos. Primeiro: o site do PCP está bloqueado, mas o da CDU — coligação onde o PCP é a força central — é acessível. Se o critério fosse ideológico, ambos seriam filtrados em conjunto. Segundo: o site do PCTP-MRPP, partido também à esquerda, é acessível. Terceiro: os sites do PPM e do ADN, ambos à direita do espectro, estão bloqueados.

Estes três pontos não vêm de comentadores. Vêm da própria Marinha, registados na peça da Lusa de 7 de maio de 2026.

O que isto significa

A tese de filtragem politicamente intencional contra a esquerda parlamentar não se sustenta sem revisão. Se houvesse um operador a escolher manualmente sites a bloquear, teria bloqueado também a CDU, teria bloqueado o PCTP-MRPP, e não teria bloqueado o PPM e o ADN. O padrão real parece ser outro: uma categorização automática que apanha desigualmente partidos do mesmo lado e do lado oposto, com erros em ambas as direções.

O que continua válido na crítica do Bloco

A denúncia mantém a sua força noutro nível. Não há padrão cirúrgico, mas há padrão. Quatro dos cinco partidos com mais expressão à esquerda — Bloco, PCP, Livre e PS — estão bloqueados. Os dois maiores partidos da direita parlamentar — PSD e Chega — estão acessíveis. O efeito político é real, mesmo que a causa seja técnica e involuntária.

O Bloco pede ao Governo investigação autónoma. Esse pedido continua justificado. A explicação técnica não dispensa escrutínio — não porque seja necessariamente falsa, mas porque uma rede que entrega a categorização de conteúdo a um fornecedor externo precisa de prestar contas sobre essa delegação.

A nuance que falta no debate

Há um espaço editorial mal ocupado entre duas afirmações tentadoras. A primeira: “a Marinha está a censurar a esquerda.” A segunda: “é só um bug técnico, sigam em frente.” Nenhuma das duas serve o cidadão. A primeira sobrecarrega de intenção um sistema que pode estar simplesmente avariado. A segunda subestima as consequências políticas de um sistema avariado dentro de uma força armada.

O ponto honesto — e desconfortável para os dois lados — é que num sistema delegado a software comercial, o resultado pode ser politicamente enviesado sem que ninguém tenha tomado uma decisão política. Isso não absolve. Agrava.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

You May Also Like

Sánchez prova que humanismo é estratégia eleitoral, não luxo moral

Partilha
Opinião: salários, Gaza, NATO e Vox mostram que o humanismo político pode ser estratégia eleitoral. Portugal ainda trata prudência como ausência de posição.

Bots, Trolls e Personas Falsas: A Sombria Arte de Fabricar Consenso Online

Partilha
Um exército de identidades fictícias, desde perfis fraudulentos a operações massivas de ‘trolling’, labora incessantemente no ecossistema digital para fabricar consentimento e validar narrativas. Estas manobras, cada vez mais sofisticadas, recorrem a técnicas de inteligência artificial para simular autenticidade humana, minando a confiança e o debate democrático. O que se esconde por detrás desta cortina de fumo digital e como se tenta ludibriar os mecanismos de deteção?

Manipulated: Desinformação por IA ameaça a confiança digital

Partilha
Uma nova série investigativa alerta para os perigos da inteligência artificial na disseminação de conteúdos manipulados. “Manipulated: A Disinformation Nation”, lançada pela Gray Media e pela plataforma InvestigateTV, mergulha no impacto crescente das deepfakes e fraudes digitais, revelando como estas tecnologias estão a contaminar o nosso quotidiano — das redes sociais às campanhas políticas.