EGEAC paga 75 mil euros a produtor da campanha de Moedas - Sociedade Civil
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Resumo

  • Cinco meses entre a campanha e o contratoA fotografia mostra os dois homens no mesmo hotel de Lisboa, na mesma noite — a noite em que Carlos Moedas foi reeleito presidente da Câmara.
  • ”Apontou ainda o que chamou “ligação pública reconhecida” entre o promotor e Moedas, considerando que o caso “revela falta de transparência e de lisura na gestão da coisa pública”.
  • Pela maioria, o vereador Diogo Moura (CDS-PP) explicou que o evento tem “carácter semipúblico” e que o apoio público “tem a ver com a componente da programação de entrada livre”.

EGEAC paga 75 mil euros a produtor que esteve na noite eleitoral de Moedas


Empresa municipal adjudicou por ajuste directo à LOHAD, de Gonçalo Castel-Branco, a coprodução do “chic-nic” do Parque Eduardo VII. O valor ficou abaixo do limiar que obrigaria deliberação do executivo da Câmara.


A EGEAC, empresa municipal da Câmara de Lisboa, adjudicou 75.000 euros por ajuste directo à empresa LOHAD para coproduzir o evento “Um Domingo na Avenida”, realizado no domingo, 3 de Maio, no Parque Eduardo VII. O dono da LOHAD, Gonçalo Castel-Branco, integrou a equipa técnica da noite eleitoral de Carlos Moedas em 12 de Outubro de 2025.


A decisão de adjudicação tem data de 31 de Março de 2026 e foi assinada por Pedro Moreira, presidente do Conselho de Administração da EGEAC. O contrato, citado pela revista Sábado, descreve o objecto contratual como “aquisição de serviços de concepção, coprodução e apresentação ao público dos espectáculos musicais integrados na iniciativa”. O evento incluiu actuação do cantor David Fonseca e da Orquestra Académica Metropolitana, num formato que reservou lugares para piquenique em frente ao palco. Os bilhetes para a área reservada custaram entre 150 e 300 euros — duplos e familiares, respectivamente.


Cinco meses entre a campanha e o contrato
A fotografia mostra os dois homens no mesmo hotel de Lisboa, na mesma noite — a noite em que Carlos Moedas foi reeleito presidente da Câmara. Castel-Branco está nos bastidores, em função técnica e de produção. À distância, no palco principal, está Moedas. Era o dia 12 de Outubro de 2025.


Cinco meses e dezanove dias depois, a empresa que Castel-Branco dirige recebeu um ajuste directo de 75.000 euros da empresa municipal que responde, em última instância, à liderança política do mesmo Carlos Moedas. À Sábado, Castel-Branco confirmou ter sido remunerado pelo trabalho na campanha. Recusou divulgar o valor recebido. E afirmou que “as duas coisas não têm ligação”.
Sobre os 75.000 euros, foi mais lacónico: disse “não saber justificar o valor atribuído”.
A defesa do presidente


Moedas falou pela primeira vez sobre o assunto na sexta-feira, 1 de Maio, no espaço de comentário do canal NOW. “A câmara não apoiou o piquenique mas os eventos visíveis para todos. A ajuda foi para a música, para os cantores que vão lá estar e toda a gente pode ver, não há barreiras”, disse. A explicação foi repetida à imprensa nos dias seguintes.


Confrontada com pedidos de esclarecimento, a Câmara remeteu as perguntas “à estrutura da campanha eleitoral de Carlos Moedas e à EGEAC”. Já a EGEAC justificou a coprodução pela sua “missão de promover o acesso diversificado e qualificado à cultura”. O envolvimento da empresa municipal, segundo a nota oficial, “centra-se na contratação dos artistas, bem como na disponibilização das estruturas e dos meios técnicos, como palco, som, luz, entre outros”.


A pergunta óbvia é se uma empresa municipal pode coproduzir um projecto e simultaneamente pagar apenas uma parte dele. O contrato, no seu objecto, fala de “concepção, coprodução e apresentação”. Não fala de patrocínio parcial.
A reunião pública de 29 de Abril


Foi na Câmara, em sessão pública, que o caso entrou definitivamente em ciclo político. O vereador comunista João Ferreira pediu ao presidente que travasse o evento. “Faça com que este evento não aconteça, [peço-lhe] que tenha a sensibilidade social, que tenha a correcção de fazer com que este evento não aconteça, pelo menos não nos termos em que está proposto.”
Apontou ainda o que chamou “ligação pública reconhecida” entre o promotor e Moedas, considerando que o caso “revela falta de transparência e de lisura na gestão da coisa pública”.


Alexandra Leitão, vereadora socialista e candidata derrotada nas autárquicas de Outubro, falou de uma cidade “cada vez mais desigual” e pediu “sensibilidade social”. Carolina Serrão, do Bloco de Esquerda, questionou qual o “interesse público” do evento. Carlos Teixeira, do Livre, subscreveu as críticas.
Pela maioria, o vereador Diogo Moura (CDS-PP) explicou que o evento tem “carácter semipúblico” e que o apoio público “tem a ver com a componente da programação de entrada livre”.


Moedas defendeu o seu mandato com números — 1.900 casas municipais recuperadas, mais de 1.200 camas para sem-abrigo — e garantiu que “não faz escolhas relativamente aos eventos a realizar”.


O detalhe que muda a leitura
Há um pormenor técnico que altera o ângulo da história. O valor de 75.000 euros fica abaixo do limiar que obrigaria a EGEAC a remeter a decisão para deliberação do executivo da Câmara. Significa que Pedro Moreira, presidente do Conselho de Administração da empresa municipal, pôde decidir sozinho. Sem voto dos vereadores. Sem passagem por reunião de Câmara.


A Sábado foi a primeira a notar. O Expresso e o ECO confirmaram a leitura técnica.
A pergunta seguinte é se 75.000 euros é o número que faz sentido para o evento — ou o número que cabe no espaço onde a fiscalização política não chega. Não há resposta documental para esta pergunta. Há apenas a coincidência.


O que falta apurar
Várias linhas continuam abertas. O caderno de encargos do contrato não está publicamente analisado. Não se sabe se houve consulta prévia a outras entidades produtoras nem qual a fundamentação técnica para o valor. O histórico completo da LOHAD em contratação pública continua por mapear, tal como o das outras empresas fundadas por Castel-Branco — Action4, Cherry Entertainment, T&M.


O valor pago por Moedas a Castel-Branco pela prestação na campanha eleitoral de Outubro continua, também, em segredo. Castel-Branco recusou divulgá-lo à Sábado. Por verificar via Entidade das Contas e Financiamentos Políticos.
Daquela noite no hotel de Lisboa, em Outubro, restou uma fotografia. Cinco meses e dezanove dias depois, restou um contrato. Entre os dois documentos, falta o que o jornalismo ainda não apurou e a Câmara ainda não esclareceu.

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